The Invisible Worm (Jennifer Johnston)

Fiquei bem surpresa quando, há uns dois meses, minha colega de pesquisa me presenteou com esse romance. O presente, na verdade, foi em função de uma oficina que deveríamos apresentar (e que aconteceu essa semana) relacionando literatura e trauma.

Confesso que nunca havia ouvido falar nessa autora mas, quando vi que ela era irlandesa, lembrei de todos os romances contemporâneos de irlandesas que li nos últimos tempos e fiquei empolgada com a empreitada. O romance lembra sim, The Trick is to Keep Breathing, da Janice Galloway e The Gathering, da Anne Enright, em termos de estrutura narrativa, de personagens e, em mutios aspectos, de enredo.

Como dito anteriormente, li o texto para um trabalho cujo tema principal era o trauma. E, talvez, o aspecto mais importante a ser levado em consideração quando estudamos memória e narrativa do trauma seja a necessidade que a vítima tem de se expressar a respeito do ocorrido. O evento traumático desestabiliza e fratura e, como consequência, a memória desse evento passa a “assombrar” o sujeito traumático e influenciando sua própria maneira de narrar e de expressar. Por outro lado, o sujeito do trauma tem a necessidade de narrar repetidas vezes o evento traumático porque, ao adentrar no terreno traumático, ele tenta dar uma lógica e contar para si mesmo, por meio de palavras, o que aconteceu.

Não existem palavras suficientes que possam descrever o que foi visto e sentido, como é o caso de Invisible Worm, em que Laura, dona de casa de quase quarenta anos ainda é “assombrada” pela memória do estupro cometido pelo próprio pai. A história do romance inicia quando Laura e seu marido Maurice se preparam para o funeral do pai da personagem.
Não há uma divisão “formal” e numerada entre capítulos, mas há várias partes separadas que compõem o romance. E, em cada uma delas, Laura relembra do pai com uma mescla de ódio e culpa, pois, certo tempo depois do acontecido a mãe de Laura comete suicídio. E a personagem toma para si a culpa pela morte da mãe.

Como consequência, não apenas as falas da personagem são fragmentadas (li que a autora é bastante conhecida por suas peças de teatro, o que, talvez, explique a grande ocorrência de diálogos neste romance), como a própria narrativa tem esse caráter: em alguns momentos a voz narrativa é em primeira pessoa do singular e em outras, em terceira.

Outro personagem emblemático do romance é Dominic, um professor de línguas clássicas que aparece na vizinhança e se torna amigo de Laura e Maurice. O professor também tem um histórico de trauma: seu pai não o perdôou por ter largado o seminário para ser professor, causando uma ruptura na família. A partir do momendo em que Laura e Dominic se encontram, os dois passam a dividir xícaras de chá e a conversar sobre os acontecimentos traumáticos de cada um enquanto os dois, juntos, trabalham na reforma e limpeza de uma pequena casa de verão junto às águas onde a mãe de Laura se suicidou.

Apesar de o enredo ser bastante denso, a narrativa é de uma singeleza absurda pois reflete as angústias dos personagens e a maneira como os dois superam seus traumas (se é que superam…). Classifiquei esse como um livro “cinco estrelas” e como um dos meus favoritos. Gostaria de falar mais, muito mais sobre ele aqui, mas meu tempo encurtou. É bem provável que eu desenvolva mais trabalhos acerca desse romance em breve.

Boa leitura!

Edição:

JOHNSTON, Jennifer. The Invisible Worm. London: Penguin. 1991

obs (1): seguindo a onda das escritoras irlandesas contemporâneas, pretendo ler MUITO em breve o Room da Emma Donoghue (finalista do Man Booker Prize).

obs (2): fiz uma seleção dos irlandeses (entre escritores e escritoras) que tenho em casa e separei The Lord Of the Flies, Brooklyn e, claro, os clássicos Ulysses e The Portrait of the Artist as a Young Man. Quem sabe eu não consiga dar conta deles até o fim do ano?

obs (3): fiquei duas semanas sem aparecer por aqui, shame on me.

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8 thoughts on “The Invisible Worm (Jennifer Johnston)

  1. Adoro livros que tratam de trauma. Acho que O Laço Duplo, de Chris Bohjalian, é um livro que trata bem dessa temática. Ele mostra uma mulher que sofre uma tentativa de estupro e narra coisas que, inicialmente, o leitor toma como real, mas conforme lê percebe que o que o livro contém são mecanismos criados pela protagonista para esquecer o episódio em que quase morreu. É bem legal o livro, usa personagens de O Grande Gatsby =D

    E quase não li autores irlandeses, acho. O último foi Aconteceu em Blackrock, de Kevin Power, narrando uma briga de adolescentes que termina em assassinato. Livro muito bom, se quiser emprestado te levo um dia desses.

    E força pra atualizar aqui mais vezes, ehehhehe

    • Tô tentando, eu juro ;)

      Lembrei que também tenho o Angela’s Ashes, do Frank McCourt aqui em casa! Minha colega me emprestou esses dias (era leitura obrigatória no semestre passado mas, as usual, não consegui vencer).

      Quanto às narrativas sobre trauma, fiquei impressionada com as análises e teorias envolvendo trauma e memória. Acabei lendo também o Diante da Dor dos Outros, da Susan Sontag e consegui fazer pontes com a fotografia, o cinema e, por que não? com as graphic novels. Escreverei mais sobre isso em breve. :)

  2. O “Portrait” é muito bom. Junto com os contos, é a melhor coisa que o Joyce escreveu. Vou esperar teu juízo sobre as irlandesas pra ir atrás de algum livro. Daquelas bandas, só conheço macho :-/

    • Fiquei sabendo que a Anne Enright veio para o Brasil em uma FLIP, não lembro qual agora, 2008, talvez.
      Recomendo muito o The Gathering (acho que ficou traduzido como “O Encontro” por aqui) se tu quiser começar a ler uma delas. :D

      Ah, e pode deixar que o Joyce já tá na fila de próximas leituras! ;)

      Obrigada pela visita!

    • SSSSSIM, É VERDADE!!!
      a Ali Smith tá na minha lista há um tempão!!!!
      obrigada por lembrar :D

      não tinha ouvido falar na Hyland, procurarei!

  3. É tão difícil falar de algo tão marcante na vida de uma pessoa como um trauma. Coisas que mal falamos pra nós mesmos. Fico pensando se a autora conseguiu imaginar tudo isso através de outras pessoas ou se ela mesma passou por isso. Me deu vontade de ler, juro pra ti, mas ainda to cicatrizando do TTITKB (apesar de que, no fundo, já to curado e melhor do que antes). Em breve me inspiro mais em ti e posto de novo no meu. Adorei!

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