O Perdão (Andradina de Oliveira)

Li, em dois dias, este livro maravilhoso e muito diferente de qualquer livro de literatura brasileira que já caiu nas minhas mãos até hoje. Publicado originalmente em 1910 e relançado este ano pela Editora Mulheres, foi organizado e conta com Introdução da professora da UFRGS Dra. Rita Terezinha Schmidt.

Este romance, urbano, trata do tema do adultério em uma família porto-alegrense do início do século XX. Estela, filha primogênita do casal Leonardo e Paula, vive rodeada pelo luxo e carinho da família e do marido Jorge. Porém, quando Armando, sobrinho de Jorge muda para a casa dos dois para estudar Direito na capital, a protagonista sente-se atraída pelo sobrinho que a seduz através da música, sua grande paixão menina. Os dois entregam-se à paixão, ocultando de todos (inclusive dos criados) os encontros e beijos às escondidas. Estela adoece por conceber que seu romance com Armando trata-se, nas palavras da autora, de uma “paixão criminosa” e vê seu mundo ruir, dominada pelo medo de ser descoberta – e, em seu delírio, morta – pelo marido. Os dois, então, decidem fugir em uma embarcação rumo ao Rio de Janeiro para refugiarem-se com a mãe, com as irmãs de Armando e, claro, com a miséria que espera pelos dois amantes e cúmplices na construção do futuro desgraçado que os aguarda.

A autora aborta a temática da histeria sofrida pela personagem principal, provocada pelo intenso sentimento de culpa em uma sociedade cujos valores patriarcais reinam sobre a subjetividade e que designa os papéis sociais e de gênero vividos pelas mulheres. Jorge, seu marido, que é visto como um modelo de moral e virtude, passa maior parte do dia fora e em algumas ocasiões até passa a noite, com o mesmo pretexto do trabalho e, no entanto, em momento algum é sugerida qualquer suspeita acerca de um possível caso extra-conjugal – o que me faz pensar se é proposital ou não da parte da autora.

O desejo de emancipar-se mostra-se presente no diálogo entre duas personagens, tia Zina, tia-avó, e Paula, mãe de Estela. Transcrevo abaixo trecho do diálogo presente na página 142:

– Estela tem juízo, Paula, e compreende verdadeiramente os seus deveres. A mulher depois de casada morre para o mundo. É tratar do marido e dos e filhos e nada mais.
– Ora deixe-se de tolices, tia Zina! Você nem parece que está no século XX, no reinado da emancipação da mulher. Longe vai a nossa escravidão! Longe vão os absurdos preconceitos! Fique certa, tia Zina, que a mulher pode muito bem cumprir as suas obrigações sem ficar criando bolor em casa, deixando inchar as pernas e engrossar a cinta.

Imagino que não há necessidade de relembrar que o livro foi publicado em 1910.

Não posso deixar de registrar meu apreço por esta obra que, somada às demais que li durante meu trabalho de pesquisa com a professora Rita, contribuíram para um maior conhecimento (e também total apreço) pelas obras esquecidas (e agora resgatadas) de escritoras latino-americanas do século XIX e início do século XX.

Edição: OLIVEIRA, Andradina de. O Perdão. Florianópolis: Editora Mulheres, 2010.

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