The Lost Boy (Thomas Wolfe)

Depois de quase duas semanas de leitura, três páginas do meu bloco de anotações e seguidas releituras de trechos e alguns contos completos, consegui sentar e organizar minhas impressões sobre o The Lost Boy, do Thomas Wolfe.
Tomei conhecimento deste autor por "indicação" de Claudio Willer no já citado Geração Beat. Alguns dias atrás, na biblioteca da faculdade, me deparei com este exemplar e lembrei que, segundo Willer, este autor teria influenciado os escritores da Geração Beat na década de 50. Infelizmente, The Lost Boy era o único livro de Tom Wolfe disponível nas estantes de literatura norte-americana. Felizmente, era um dos melhores!

O livro é composto por 10 contos, todos parte de uma série de manuscritos deixador por Wolfe para seu editor.Ao final dos 10 contos há um texto intitulado "A Note on Thomas Wolfe" em que o editor Edward C. Aswell conta sua experiência como editor de Wolfe e também esclarece o processo criativo do escritor. Comecei a lê-los sem grandes expectativas porque, bem, porque é um livro de contos, e minhas expectativas com relação a um livro desse tipo é sempre: "posso esperar qualquer coisa que tenha saído da mente de um escritor porque todos sabemos que escritores são meio (?) loucos". Adoro pegar um livro de um autor até então desconhecido e imaginar uma espécie de "circo dos horrores" (no bom sentido), em que cada conto relata um universo a parte ou situações aleatórias vividas pelos personagens que, também, na maioria dos casos são aleatórios.
Assim começou The Lost Boy. Porém, para minha surpresa (I), conforme fui avançando na leitura dos contos, percebi uma sequencia narrativa — motivo pelo qual me obriguei, com muito prazer, a reler vários trechos e alguns dos contos na íntegra! — o que transforma a série de narrativas quase em um romance. Ora, e por que não interpretar dessa maneira?

Para minha surpresa (II), acabei descobrindo que muitas das situações narradas no livro são autobiográficas, mostrando a infância, a perda do irmão, a história da família, as viagens, a cidade natal e, claro, muitas das indagações com as quais um escritor se depara ao longo de sua trajetória literária. A literatura obteve importancia tal em sua vida que, pesquisando sobre Wolfe, descobri que o mesmo possui um ensaio autobiográfico sobre a escrita intitulado The Story of a Novel, publicado em 1936.
Quais meus contos favoritos desde livro? Posso afirmar que o primeiro, The Lost Boy, é certamente um deles. Conta a história de uma família que lembra do já falecido filho de 12 anos, Grover. Na primeira parte do conto, Grover, ainda vivo, compra doces em uma loja perto de sua casa em troca de selos. A rotina de Grover é marcada pela inocência com que o menino vê o cotidiano ao seu redor:

Also, he always stopped before the music and piano store. It was a splendid store. And in the window was a small white dog upon his haunches, with head cocked gravely to one side, a small white dog that never moved, that never barked, that listened attentively at the flaring funnel of a horn to hear "His Master’s Voice" – a horn forever silent, and a voice that never spoke. And within were many rich and shining shapes of great pianos, an air of splendor and of wealth. (pág.5)

Na segunda, terceira e quarta parte, a mãe, a irmã e o irmão, respectivamente, relembram da infância na casa e das histórias do filho e irmão querido e já falecido. O conto encontra-se disponível na íntegra aqui.

Várias das histórias, giram em torno do personagem Eugene Gant, um escritor que, vem a se saber no sexto conto The Return of the Prodigal, escreve um livro contando uma história de sua cidade natal e como os moradores da mesma ficaram indignados com o livro. Neste conto o personagem principal fantasia uma situação em que retorna à cidade natal e é calorosamente recepcionado por ser agora um escritor famoso, e não mais um possível caluniador da cidade. No entanto, Eugene Gant é irmão de Grover e protagonista da terceira parte de The Lost Boy, quando Gene, depois de muitos anos, retorna à casa em que nasceu e cresceu com seus irmãos. No momento em que Eugene fantasia seu retorno à cidade natal`, imagina uma cena tanto cômica na qual seria testemunha: em um bar, dois homens discutem e um deles acaba baleado, porém, ao descobrirem que Eugene, o famoso escritor, encontra-se no bar a tensão do momento é dissolvida e Gene passa a ser foco das atenções, despertando a curiosidade e a admiração de todos, pois afinal, estão frente a frente com uma "celebridade" — enquanto o corpo do assassinado jaz a poucos metros de todos.
Por fim, cabe ressaltar que Thomas Wolfe é considerado um dos grandes escritores do Século XX e sua obra é digna de atenção (na minha opinião) por enfocar o processo literário e por tornar sensíveis as mais banais cenas do cotidiano.

Mais algumas anotações (tiradas do meu bloquinho — e ampliadas aqui, no googledocs):

  • Há uma interessante biografia sobre o autor no Thomas Wolfe Web Site (complementar ao Note on Thomas Wolfe, de Aswell)
  • Faleceu jovem, aos 37 anos de idade; porém, apenas 9 anos antes de morrer começou a escrever "freneticamente" e a publicar seus textos — o que me faz lembrar do escritor chileno Roberto Bolaño, falecido em 2003, teve um número considerável de romances e contos escritos e publicados poucos anos antes da sua morte.
  • Há um trecho em Note on Thomas Wolfe em que Aswell diz:

George Webber [personagem de You Can't Go Home Again (1940)] had just published his first book when he uttered this despairing cry, and was about to plunge into the jungle depths of Brooklyn to live and work alone until he had found "the way" out of his dilemma. (pág. 211)

esta espécie de "reclusão" e de "fuga" da sociedade, de certa forma, me fez lembrar e ficar com vontade de ler o romance Dr. Pesavento, do escritor catalão Enrique Villa-Matas. Também ficou com vontade? Há duas resenhas interessantes para quem também estiver interessado(a) aqui [revista Cult] e aqui [blog do Antônio].

Edição: WOLFE, Thomas C. The Lost Boy; with a note on Thomas Worlfe. New York: Harper & Row, 1965.

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