Campeonato Gaúcho de Literatura (Jogo 15)

Ao que tudo indica, o texto de hoje será para todos aqueles que gostam de futebol, certo? Errado! É para quem gosta, acima de tudo, de literatura.

Há poucos meses recebi o convite para participar daquilo que se chama Campeonato Gaúcho de Literatura, uma iniciativa de escritores, editores, livreiros etc. para promover a literatura e, segundo a página da comissão, “provocar o debate sobre a produção local e estimular a leitura e o consumo da literatura” daqui do RS de uma forma bastante peculiar.

O campeonato, formado por 27 livros (jogadores) e 27 juízes (juízes mesmo) segue o formato de um campeonato de futebol, onde os livros foram divididos em 9 grupos (de 3, para quem, assim como eu, precisou fazer o cálculo antes de prosseguir com a leitura/escrita) que disputarão, inicialmente entre si e depois entre os vencedores de cada grupo.

O que chama a atenção é a característica do corpus, digo, dos times escolhidos para a competição:

1. seleção de contos;

2. escritores e escritoras gaúchos(as);

3. publicados entre 2008-2009;

Dá pra acreditar que os organizadores conseguiram juntar 27 livros? Nem eu sabia que se produzia tanto aqui no estado!

Pois então, hoje, 29 de Julho, foi ao ar a minha primeira experiência como juíza no Gauchão de Literatura (como o campeonato foi apelidado). Devo confessar que foi difícil escrever munida de argumentos unicamente baseados em meu gosto pessoal, critério estipulado pela Comissão Organizadora! Demorei mais de uma semana para organizar as idéias e botar no papel, reescrevi o texto três vezes e, por fim, totalizei 7 páginas do word. Mas o que vocês esperavam? Recebi dois livros maravilhosos para resenhar: Entre Facas, de Liziane Guazina e Tempos Frágeis, de Marilice Costi.

Quer saber o quê eles têm de tão bom, qual foi o meu favorito e por quê? Clica aqui :)

Boa leitura!

Madame Bovary (Gustave Flaubert)

(capa lindinha de uma das últimas edições da Penguin Books)

Lembro de ter começado a ler (sem sucesso) muito antes de entrar na faculdade porque minha mãe tinha o romance em casa. Doei o livro (com o consentimento da mãe, claro) para a biblioteca pública da minha cidade natal como moeda de renovação anual da ficha e só voltei a ter contato com o romance no segundo semestre da faculdade, quando foi cobrada (e avaliada) a leitura de alguns dos principais-romances-do-Realismo. Que sacrifício ler Flaubert! Demorei, sem mentira, quase um mês para finalizar a leitura e quase abri uma champagne para comemorar. Como pude achar a leitura tão ruim?

Agora, três anos depois, foi-me solicitada novamente a leitura do romance, porém, desta vez, minha orientadora queria a edição traduzida para o inglês. Retirei a edição na biblioteca da faculdade e comecei a ler suas 360 páginas (letra MINÚSCULA) no momento em que cheguei em casa. Para minha surpresa, o livro parecia muito, mas muito diferente daquele lido há alguns anos! Terminei a leitura em menos de uma semana (sem contar os intervalos, creio que li em 4 dias). Sim, meus olhos reclamaram bastante (passei o dia seguinte praticamente dormindo), mas né? Vício é vício.

Finalizei a leitura impressionada comigo mesma. O que me pareceu uma história “boba” (na ausência de outra palavra) na época da primeira leitura, agora se mostrou uma sequencia de eventos das mais interessantes que já li. Poxa, eu até chorei (e quem não chora?) quando Emma e Rodolphe decidem fugir. Chorei porque sabia que o plano não daria certo… E chorei mais ainda quando ele, com total indiferença para com os sentimentos de Emma, decide abortar o plano, mentindo que encontrava-se em uma situação financeira ruim e que tomava a decisão por se preocupar com o futuro da personagem. AHÃ.

O livro põe em discussão, dentre muitos aspectos, o adultério cometido pela mulher casada. A mudança na narrativa torna-se clara após o encontro entre Emma e Rodolphe, evidenciando o poder de subversão que este ato e o fato de se tornar “a amante” operou na personagem. Ela passa a ver o encontro com os dois amantes (primeiro Rodolphe e depois Léon) como únicas alegrias presentes em sua vida.

Outro aspecto gritante no livro é com relação ao papel social destinado às mulheres daquela sociedade e naquele tempo: a elas era apenas permitido levar uma vida praticamente enclausurada dentro da própria casa e a única educação a que estavam submetidas era o acesso à música, ao bordado e à leitura de romances que, na opinião de vários personagens de Madame Bovary, seriam os responsáveis pela insatisfação e oscilações de humor de Emma. A personagem é constantemente posta em comparação com Madame Homais, esposa do farmacêutico, por esta última ser extremamente zelosa no cuidado com a casa, com o marido e com os filhos, ao contrário de Emma.

Em linhas gerais, achei totalmente proveitosa a releitura do romance — que me fez lembrar, em muitos aspectos, o romance O Perdão (1910), da escritora gaúcha Andradina de Oliveira, porque a autora põe em evidência os mesmos aspectos primeiramente apontados por Flaubert e, porque, ao final, a protagonista de seu romance também comete suicídio. Os dois romances mostram como era a vida nos ambientes domésticos no século XIX e início do século XX (no caso do romance gaúcho) em algumas sociedades.

* * *

Mudando um pouquinho de assunto: o tema do post de hoje me lembrou de uma conversa com meu amigo Guilherme, ocorrida há poucos dias, sobre o hábito de reler os livros. Ele havia dito que sempre relia um livro após ter terminado o mesmo, para absorver melhor o contéudo. Fiquei impressionada e, por que não?, com inveja dessa aptidão! Um dia eu ainda vou deixar de ser preguiçosa e ler e reler muito, muito mais!!

Mudando mais um pouquinho de assunto: como deu para perceber, estou, no momento, bastante ocupada com uma das etapas da pesquisa acadêmica: a preparação de textos, apresentações e artigos para a apresentação e publicação em diversos eventos acadêmicos. Por isso, peço desculpas adiantadas pelo tempo que, infelizmente, ficarei sem postar por aqui.

Espero retornar muito em breve com novidades!

Volto novamente a fazer o pedido: quero sugestões de leituras :)

Edição: FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Translator: ? London: Penguin Books, 1995.

obs (1): como deu para perceber, não encontrei nenhuma informação/referência sobre o tradutor da edição.

obs (2): a figura que se encontra acima do texto não corresponde à edição que li mas, como não encontrei a imagem do mesmo, resolvi colocar a capa de uma edição (também da Penguin) bem bonitinha, para ver se vocês (leitores) se animam a ler.

Boa leitura!

Desabafo para José Saramago

O texto de hoje, além de pessoal (como todos os que posto aqui) é confessional.

Pouco havia me importado com a morte do escritor português José Saramago, ocorrida no dia 18 de Junho, parte porque até o momento não li nada da sua obra, parte porque fiquei irritada com o sensacionalismo demasiado em cima de sua morte da parte de blogs, jornais e revistas do país inteiro, como se um escritor ou escritora fosse importante e digno ou digna de uma notícia (ou nota) apenas quando morresse.

Confesso que fiquei irritada também com as muitas “declarações de amor literário” e tantos outros puxa-saquismos que surgiram a partir daí, a ponto de me fazer querer classificar Saramago como um possível escritor cujo nome configuraria a tão famigerada comunidade “Escritores com fãs escrotos”. Ele era bom escritor? Não sei, ainda não li nenhum dos seus romances. Mas lerei com todo o prazer do mundo como faço com todos os livros que leio e escrevo sobre aqui ou na faculdade.

No entanto, boa parte da minha antipatia para com Saramago se dissipou após tomar conhecimento do seguinte texto, publicado em 27 de Julho de 2009 no site Outros Cadernos de José Saramago:

Problema de Homens

por José Saramago

Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que crêem ser seus donos. Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume, é certo que só pouco a pouco, que esta violência é um problema dos homens e que os homens têm de resolver. De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres quem saía à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo. A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio. É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica. Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade e com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e à violência. Direito a usar o que consideravam seu. Este novo acto de violência de género, mais os que se produziram neste fim-de-semana, em Madrid uma menina assassinada, em Toledo uma mulher de 33 anos morta diante da sua filha de seis, deveriam ter feito sair os homens à rua. Talvez 100 mil homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia.

(fonte)

O que me autoriza a colocar seu autor alguns livros à frente na minha lista de leituras futuras. Se alguém teve a coragem de falar/escrever aquilo que eu muitas vezes tenho vontade de gritar ao mundo inteiro, então talvez Saramago seja um possível candidato a minha lista dos meus escritores favoritos.

Por favor, passem adiante esta mensagem.

E boa leitura a todos!

Prorrogação de Prazo — I Jornada de Estudos Literários (UFRGS)

Colegas da UFRGS,
Ainda dá tempo de enviar o resumo para a I Jornada de Estudos Literários que acontecerá no dia 26 de Agosto lá na Universidade mesmo. Agora o prazo vai até o dia 21 de Julho (quarta-feira). Lembrando que os resumos devem ser enviados para o e-mail da Comissão Organizadora da Jornada jornadaestudosliterariosufrgs [at] gmail.com e devem seguir os seguintes critérios:

Resumos

Critérios de Seleção:

O resumo deverá ser conciso e breve, apresentando objetivos, métodos, explicitando quais pressupostos teóricos serão utilizados, além de apontar possíveis considerações finais e conclusões acerca do trabalho realizado. Não serão selecionados os resumos que não se encaixem em nenhum dos eixos temáticos propostos, assim como aqueles que não apresentarem professor responsável.

Aspectos formais:

Tamanho 10, espaçamento simples, fonte Times New Roman. Além disso, o texto deve conter título, nome do autor, nome do professor responsável e o texto em novo parágrafo, num único bloco justificado, de 300 a 400 palavras, e na linha seguinte, devem constar até cinco palavras-chave.

Não esqueçam de visitar o blog do evento para saber mais!

Nos vemos lá :)

The Trick is to Keep Breathing (Janice Galloway)

Tenho mania de apertar trocentas vezes o Ctrl + S quando começo a escrever no googledocs para não acontecer de perder o trabalho. Mas acredito que mais seguro ainda seja escrever no papel. Ou não. Havia começado algumas anotações sobre o livro em uma folha do meu bloco mas acabei jogando fora sem querer junto com a LIMPEZA DE FIM DE SEMESTRE.

Não seja por isso, vamos lá de novo!:

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The Trick is to Keep Breathing, da escocesa Janice Galloway, é um livro difícil. Quando o Alessandro, meu colega de faculdade, me emprestou este exemplar, advertiu-me: “Amanda, por favor, vê se não afunda junto com o livro.” No que eu respondi: “Não se preocupa, Ale, já afundei uma vez. Não deixarei acontecer novamente comigo.”

Solidão, desejo de reclusão, aversão à família e amigos, perdas (mortes), rompimentos e incapacidade de reconhecimento daquilo que está acontecendo ao redor. Essas são as principais características desta densa narrativa que conta a história de Joy Stone, uma professora em depressão após a morte de seu companheiro Michael. Detalhe interssante: só sabemos que ela se chama Joy porque nos é dito na página 140… antes disso ela é referida apenas como Ms. Joy.

Joy perde a noção dos dias e das horas vivendo na casa que ela e Michael dividiam e que agora, parece se esfacelar baixo uma atmosfera de sujeira, poeira, tristeza e solidão. Além disso, Joy perde o apetite e passa praticamente todo o tempo da narrativa tomando chá, café, gin, vinho e whiskey, acompanhada ou não.

Ela também repassa inúmeras vezes a ocasião do suicídio de Michael, e a cada vez, temos um pouco mais de acesso às informações acerca do que aconteceu. Embora as informações pareçam todas esfaceladas, acabam encontrando a sequencia (i)lógica ao passo que Joy aprofunda a relação afetiva com os leitores e acaba desabafando parte do que vem sentindo.

Como dito anteriormente a leitura é dífícil, porém, a narrativa que o compõe é espetacular. Fragmentada, a narrativa se assemelha a um diário (outro gênero que adoro ler!) cujos acontecimentos são divididos por três “ooo” — detalhe que chamou a atenção da minha colega (xará) Amanda, que disse certa vez “Será que é algum personagem cantando na transição de cada trecho?”.

Quase esqueço de dizer que este livro foi leitura (obrigatória só pra quem teve tempo de ler tudo na época) para a disciplina Literatura Inglesa IV e que nas aulas (e também fora delas) criou-se a piada de dizer que o livro, na verdade, deveria se chamar The Trick is to Keep READING em função da fragmentação narrativa que exige bastante dos leitores. Além disso, a história em si parece chata por se tratar de uma narrativa em primeira pessoa, mostrando uma visão unilateral dos acontecimentos. Mas acredito que esteja justamente aí a beleza do romance: em mostrar como funciona (ou não) a mente de alguém que está sofrendo e para quem pequenas tarefas do cotidiano aparecem distorcidas, sem sentido ou aborrecidas, borradas pela tinta da incompreensão e dos muitos remédios que prometem fazer efeito. Mas não fazem.

Essa visão borrada proporciona narrativas de acontecimentos como a que segue:

Then I paid for my mother to have a phone: she was ill and I thought it was a good idea. She called me more often than I called her. She called me since it seemed ungrateful not to after I had paid all the money. She always held it too far away from her mouth and shouted. Sometimes it rang in the middle of the night and scared her. She was never sure who it was. Overnight, she left it off the hook. In case.

Soon, I had to phone the hospital to talk to her. More than once she didn’t know who I was. This must have been frightening but I kept doing it. I called her once from the top of a mountain, shouting I’M CALLING YOU FROM THE TOP OF A MOUNTAIN as if it was significant. She hung up. She didn’t remember when I told her about it a week later. Someone hang me at work the say she died. I were to the house and checked the phone, the one I paid for, on the tall table. It was off the hook. (página 56)

Por fim, deixo registrada outra passagem que me chamou muito a atenção: a parte em que ela critica severamente as “coisas” que aparecem escritas nas revistas dedicadas ao público feminino. Adorei porque parece que sou eu escrevendo!

Magazines told me to work on my awareness. I would wake up and think this is my One Shot at Today. I’m Young, Dynamic, Today’s Woman. I’m Multi-Orgasmic. I have to Live Life to the Full. I didn’t know what this mean but I though it anyway. At the start of every day. It became pressing. I would get anxious if I hadn’t done something new, discovered something, found a direction for my life. I filled in a diary I didn’t want to keep but thought I had to do so I could record the momentous changes that would occur now I was independent and free. (páginas 194-195)

Por fim, acho que todas as mulheres deveriam ler este livro. Ou pelo menos aquelas que não se conformam com a “normalidade” das “coisas” (i.e., comportamentos) que nos são empurradas goela abaixo. Melhor, acho que todo mundo deveria ler este livro por causa de sua facilidade em desinteressar um leitor que não esteja acostumado a ver o outro lado da “felicidade”.

Aproveito o espaço para fazer um pedido aos leitores: sugiram leituras :)
Podem usar o espaço dos comentários de cada post ou, se vocês forem muito envergonhados, podem escrever um email sugerindo, trocando idéias, mandando material… vou adorar! blogthesunsets [at] gmail.com

Boa leitura!

Edição: GALLOWAY, Janice. The Trick is to Keep Breathing. London: Vintage, 1999.

(Ale, muito obrigada!)

Ah, preciso deixar registrado: ACABOU O SEMESTRE! :D
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