The Trick is to Keep Breathing (Janice Galloway)

Tenho mania de apertar trocentas vezes o Ctrl + S quando começo a escrever no googledocs para não acontecer de perder o trabalho. Mas acredito que mais seguro ainda seja escrever no papel. Ou não. Havia começado algumas anotações sobre o livro em uma folha do meu bloco mas acabei jogando fora sem querer junto com a LIMPEZA DE FIM DE SEMESTRE.

Não seja por isso, vamos lá de novo!:

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The Trick is to Keep Breathing, da escocesa Janice Galloway, é um livro difícil. Quando o Alessandro, meu colega de faculdade, me emprestou este exemplar, advertiu-me: “Amanda, por favor, vê se não afunda junto com o livro.” No que eu respondi: “Não se preocupa, Ale, já afundei uma vez. Não deixarei acontecer novamente comigo.”

Solidão, desejo de reclusão, aversão à família e amigos, perdas (mortes), rompimentos e incapacidade de reconhecimento daquilo que está acontecendo ao redor. Essas são as principais características desta densa narrativa que conta a história de Joy Stone, uma professora em depressão após a morte de seu companheiro Michael. Detalhe interssante: só sabemos que ela se chama Joy porque nos é dito na página 140… antes disso ela é referida apenas como Ms. Joy.

Joy perde a noção dos dias e das horas vivendo na casa que ela e Michael dividiam e que agora, parece se esfacelar baixo uma atmosfera de sujeira, poeira, tristeza e solidão. Além disso, Joy perde o apetite e passa praticamente todo o tempo da narrativa tomando chá, café, gin, vinho e whiskey, acompanhada ou não.

Ela também repassa inúmeras vezes a ocasião do suicídio de Michael, e a cada vez, temos um pouco mais de acesso às informações acerca do que aconteceu. Embora as informações pareçam todas esfaceladas, acabam encontrando a sequencia (i)lógica ao passo que Joy aprofunda a relação afetiva com os leitores e acaba desabafando parte do que vem sentindo.

Como dito anteriormente a leitura é dífícil, porém, a narrativa que o compõe é espetacular. Fragmentada, a narrativa se assemelha a um diário (outro gênero que adoro ler!) cujos acontecimentos são divididos por três “ooo” — detalhe que chamou a atenção da minha colega (xará) Amanda, que disse certa vez “Será que é algum personagem cantando na transição de cada trecho?”.

Quase esqueço de dizer que este livro foi leitura (obrigatória só pra quem teve tempo de ler tudo na época) para a disciplina Literatura Inglesa IV e que nas aulas (e também fora delas) criou-se a piada de dizer que o livro, na verdade, deveria se chamar The Trick is to Keep READING em função da fragmentação narrativa que exige bastante dos leitores. Além disso, a história em si parece chata por se tratar de uma narrativa em primeira pessoa, mostrando uma visão unilateral dos acontecimentos. Mas acredito que esteja justamente aí a beleza do romance: em mostrar como funciona (ou não) a mente de alguém que está sofrendo e para quem pequenas tarefas do cotidiano aparecem distorcidas, sem sentido ou aborrecidas, borradas pela tinta da incompreensão e dos muitos remédios que prometem fazer efeito. Mas não fazem.

Essa visão borrada proporciona narrativas de acontecimentos como a que segue:

Then I paid for my mother to have a phone: she was ill and I thought it was a good idea. She called me more often than I called her. She called me since it seemed ungrateful not to after I had paid all the money. She always held it too far away from her mouth and shouted. Sometimes it rang in the middle of the night and scared her. She was never sure who it was. Overnight, she left it off the hook. In case.

Soon, I had to phone the hospital to talk to her. More than once she didn’t know who I was. This must have been frightening but I kept doing it. I called her once from the top of a mountain, shouting I’M CALLING YOU FROM THE TOP OF A MOUNTAIN as if it was significant. She hung up. She didn’t remember when I told her about it a week later. Someone hang me at work the say she died. I were to the house and checked the phone, the one I paid for, on the tall table. It was off the hook. (página 56)

Por fim, deixo registrada outra passagem que me chamou muito a atenção: a parte em que ela critica severamente as “coisas” que aparecem escritas nas revistas dedicadas ao público feminino. Adorei porque parece que sou eu escrevendo!

Magazines told me to work on my awareness. I would wake up and think this is my One Shot at Today. I’m Young, Dynamic, Today’s Woman. I’m Multi-Orgasmic. I have to Live Life to the Full. I didn’t know what this mean but I though it anyway. At the start of every day. It became pressing. I would get anxious if I hadn’t done something new, discovered something, found a direction for my life. I filled in a diary I didn’t want to keep but thought I had to do so I could record the momentous changes that would occur now I was independent and free. (páginas 194-195)

Por fim, acho que todas as mulheres deveriam ler este livro. Ou pelo menos aquelas que não se conformam com a “normalidade” das “coisas” (i.e., comportamentos) que nos são empurradas goela abaixo. Melhor, acho que todo mundo deveria ler este livro por causa de sua facilidade em desinteressar um leitor que não esteja acostumado a ver o outro lado da “felicidade”.

Aproveito o espaço para fazer um pedido aos leitores: sugiram leituras :)
Podem usar o espaço dos comentários de cada post ou, se vocês forem muito envergonhados, podem escrever um email sugerindo, trocando idéias, mandando material… vou adorar! blogthesunsets [at] gmail.com

Boa leitura!

Edição: GALLOWAY, Janice. The Trick is to Keep Breathing. London: Vintage, 1999.

(Ale, muito obrigada!)

Ah, preciso deixar registrado: ACABOU O SEMESTRE! :D
david_dentist.jpg

7 thoughts on “The Trick is to Keep Breathing (Janice Galloway)

  1. Que bom que tu não entrou no mood Titanic e caiu junto com a Joy! Se bem que depois de cair, levantei melhor do que antes, confesso. Esse livro vai ficar sempre marcado em mim, um lado que conheci e que, pra bem ou pra mal, mudou quem eu sou. E também acho que todo mundo deveria ler – mas tipo, nas férias, num momento feliz, alegre…
    Adorei teu post, muito bem escrito como sempre. Me deixa sempre atualizado, ok?? Ah, e outra, tu continua participando do Skoob? Adoro aquele site, pra mim é um grande incentivo de leitura ^^ Beijos!!!!

    • mais uma vez: muito obrigada, Ale! :)
      pode deixar que eu te aviso sempre quando atualizar (o novo post sai em breve mas antes disso, quero descansar um pouquinho também — nós merecemos, depois do semestre que tivemos eheheheh)
      Tenho entrado no skoob sim! Confesso que não tanto como gostaria, mas tento deixá-lo sempre atualizado!

      Pra quem não sabe, o http://www.skoob.com.br é uma rede social muito legal! Consiste em montar uma “estante virtual” com todas as leituras que nós: já lemos, estamos lendo e vamos ler. Dá também pra marcar os favoritos, os que a gente tem, os que estão emprestados, as leituras abandonadas etc.

      Meu único problema com o skoob é que ainda não há muitos cadastros de livros em inglês… sei que tem mudado ultimamente mas, mesmo assim, tem alguns livros que ainda não estão lá.

      Fica a dica literária pra quem não quer mais saber de orkut/facebook/twitter etc e quer uma rede social mais “simplinha” :)

  2. AMIGA! Graças a deus as férias chegaram!
    Depois que eu voltar de viagem VAMOS NOS VER certo!
    Ou podemos combinar aquele chá das divas no sábado!
    Saudades!
    Beeeijos

  3. Nunca tinha ouvido falar em Janice Galloway nem nesse livro. Parece ser super interessante! Preciso lê-lo! Não apenas por também ser uma das que não se conforma com a “normalidade” das “coisas”, mas pq venho caindo e tentando sair do fundo do poço constantemente. Talvez seja bom me afundar com ele para poder retornar de vez. :P

  4. Pingback: The Invisible Worm (Jennifer Johnston) « The Sun Sets

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