The Picture of Dorian Gray (Oscar Wilde)

(Picture by Barrie Maguire)

Volta às aulas, volta às leituras da faculdade.

A cadeira da vez é Literatura Inglesa III. Não lembro se comentei aqui mas, semestre passado cursei a Literatura Inglesa IV (McEwan, Coetzee, Enright, Galloway…). Não, não estou ficando louca, é que como as disciplinas de literatura têm caráter alternativo (isto é, temos que cumprir um número “x” de créditos, podendo escolher entre uma lista de disciplinas, sem pré-requisito entre elas), em função dos horários oferecidos, cursei primeiro a 4 e depois a 3.

Então, para o delight (or not) de vocês, espero escrever sobre as impressões de leitura concernentes ao semestre: Wilde, James, Shaw, Lawrence e Hartley. Além disso, no programa da disciplina, há a menção de outros autores — Yeats, Joyce, Forster, Woolf e Golding — que serão apenas “abordados”, e não estudados a fundo como os autores anteriormente citados. (Espero poder ler esses autores da segunda lista, pois tenho aqui na minha frente The Lord of the Flies, Mrs. Dalloway e Ulysses).

Comecemos do começo, então. Reli, em poucos dias, The Picture of Dorian Gray, do irlandês Oscar Wilde. Lembro de ter comprado uma edição em português há muito, muuuito tempo e lido quando era mais nova. Mas o incrível, ou não tão incrível assim, é que eu não lembrava de quase nada da história.

Ambientada na Inglaterra do fin de siècle, o romance compõe uma crítica à sociedade da época ao mesmo tempo que dialoga com a situação das artes no período em que a revolução industrial e a burguesa mudam os rumos da sociedade e da produção artística naquele país.

Dorian Gray vê sua alma entrelaçada com o retrato pintado por Basil Hallward e com as opiniões moralistas de Lord Henry Wotton. No momento em que Dorian vê seu corpo reproduzido pelo pincel de Basil, o jovem, diante de tão inimaginável beleza, pensa em seu íntimo, que faria de tudo e daria qualquer coisa para que seu retrato envelhecesse e que seu corpo permanecesse sempre jovem… inclusive a sua alma.

Após romper com sua primeira amante, uma atriz de teatro das classes inferiores londrinas, a moça comete suicídio e Dorian descobre que quase não sente culpa ou remorso pelo acontecido e conclui que o retrato envelhece, por sofrer as consequencias do tempo e de seus atos perversos e impensados. A partir daí o personagem mergulha em uma onda de horror (sim, horror, eu cuidei para ver quando aparecia “terror” e quando aparecia “horror” e, nessa passagem, é horror mesmo) característica dos romances góticos tradicionais: assassinatos, desaparecimento, coincidência, perseguição, suicídio e desecho trágico.

Teria Dorian realmente se enxergado mais velho no quadro ou foi apenas um motivo para que o personagem colocasse a culpa de seus delitos e atos imorais no quadro? Porém, se não fosse pela passagem em que Dorian caminha pelo cais e é perseguido pelo irmão da atriz, sua primeira amante, eu diria que, em momento algum, o quadro havia trocado de lugar com Dorian. Salvo essa exceção (que derruba minha teoria), as cenas em que Dorian se vê envelhecido no retrato, são sempre narradas do seu ponto de vista. Em momento algum outro personagem chega a ele e pergunta: “Oi, Dorian, gostaria de saber como é que você mantém essa carinha de 18 num corpinho de 38. Bgão.” Logo, o cerne principal do romance estaria, na verdade, escondido por trás da voz narrativa, e não dos acontecimentos “reais”, se não fosse pela passagem do cais.

Ou tudo não passa de um aviso, por parte do narrador, de que não havia mais espaço para a arte neoclássica na Inglaterra ao transformar um ser humano em objeto de sua representação? Prefiro pensar que o autor fez uso de uma tradição gótica de romance justamente para pôr em evidência de maneira tão chocante aquilo que era caro para a aristocracia inglesa: a decadência da sociedade, dos aspectos morais e da mudança na perspectiva artística com o advento do realismo na pintura, que não permitia mais espaço para a arte pela arte, a simples reprodução da harmonia e da perfeição dos modelos gregos (igualmente belos e perfeitos).

Até compreendo quem vem me dizer que achou o livro chato. Em alguns momentos ele o é. Mas, para quem conhece um pouco sobre os acontecimentos que marcaram a sociedade inglesa naquele período, sobre a situação das artes, influenciadas pelas mudanças e, um pouco da vida de Oscar Wilde, só pode achar o livro fantástico.

Por falar nisso, nas aulas da disciplina já discutimos um pouco sobre o quanto os dados biográficos acerca de um escritor podem influenciar a leitura que fazemos de sua obra. Bem, durante todo o livro há insinuações de que Dorian e Lord Henry tiveram um caso, ou de que Dorian e outros rapazes que aparecem na sociedade inglesa tiveram algum tipo de atração. Imagino que se houvesse, em qualquer momento que fosse, qualquer relação entre os dois, isso certamente não teria passado em branco, levando-se em consideração a descrição da vida emocional de Dorian. Também pode ser que houvesse algo entre ele e outros rapazes e o autor tenha se obrigado a retirar toda e qualquer passagem que mencionasse a atração homoerótica porque, bem, porque naquela época a relação homossexual entre dois homens era considerada um crime e, claro, uma patologia das piores (um dos motivos pelo qual Maurice, de E. M. Forster só foi publicado depois de morto seu autor).

Desejo a todos uma ótima leitura!

Edição:

WILDE, Oscar. The Picture of Dorian Gray. In: Collected Works of Oscar Wilde. Hertfordshire: Wordsworth, 1997.

7 thoughts on “The Picture of Dorian Gray (Oscar Wilde)

  1. Eu AMO esse livro!
    Top 10 com certeza (junto de “A Menina que Robava Livros”, “Eu Sou o Mensageiro” e “Harry Potter”!). Tanta coisa pra comentar…
    Bem, sinto invejinha branca do teu potencial em falar de um livro em tantos parágrafos (comparada com o meu blog e tu vai ver do que estou falando hehe), e falar bem, que é raro de acontecer.
    Duas coisinhas, então, pra resumir: achei incrível essa analogia do Dorian (que inspirou meu personagem Victor Kopperden de “Brilho Febril”, que daqui um tempo vai aparecer publicado por aí…) com a sociedade. Aqueles trechos onde é dito que em nosso rosto encontram-se nossos pecados é sensacional! A outra coisa é esse fator homoerótico do livro. Eu lembro que, quando li a versão traduzida da Martin Claret (e a tradução tava bacana!), até a página 56 eu jurava que era um livro gay. O cenário, as descrições divinas sobre o Dorian, a paixão que apimentava os diálogos, para mim era tudo muito óbvio. Sabendo da história do autor, não é difícil acreditar que poderia haver, sim, algo a mais.
    Adoro teu blog todeenho, Amande!!!! :*

    • Obrigada, Ale :)
      Eu também gosto muito do teu blog porque trata muito mais dos livros que não temos que ler na faculdade, heh. Te admiro muito porque tu consegue dar conta da tonelada exigida pela UFRGS + dos que te agradam fora dela.

      Vixe *cara da xuxa olhando pra cartinha da menina com sobrenome oriental*, olha que euzinha considero meus posts pra lá de superficiais… registro aqui apenas as minhas “impressões” sobre as leituras que faço.

      As análises mais cabeçudas eu guardo pra faculdade, pra conseguir passar de semestre, heh. :)

      • Ah, por falar em temas homoeróticos, voltei a assistir Queer as Folk! Quando homem bonito, meu deus!! *.*

  2. Comprei a edição da Penguin há uns bons 6 meses e ainda não li, mas tá na fila (Maldita falta de tempo!).

    E olha que coincidência. Também li O Retrato de de Dorian Gray quando era mais novo, e também não lembro de quase nada. Acho que a edição que li era uma daquelas resumidas e tal, e que eles cortaram até a parte do pacto com o diabo. Franguinhas!

    BeijosNãoMeLigaPorquePerdiOCelular.

    • Acho que, no fundo, quando a gente é menor, lê mas não entende mesmo! Por isso acaba passando “batido” os detalhes da narrativa que são tão importantes na compreensão desse romance em especial.
      Lembro, por exemplo, do “main plot”, isto é, que um rapaz bonito tinha um retrato feito por um artista meio loucão e que, depois de um tempo, descobre que quem envelhece é o quadro e não ele. Até aí tudo bem, acho que mesmo quem não leu a história sabe disso. Mas imagine só se eu tivesse atentado para os detalhes a respeito da passagem do tempo (marcada pela evolução nos estudos de Dorian Gray) ou na própria degradação do personagem principal até culminar no seu final trágico!

      Mas há um lado bom em amadurecer a nossa percepção literária: as nossas releituras sempre são muito mais ricas do que a primeira leitura. :)

  3. Adoro de paixão esse livro. Li duas vezes de forma compulsiva e Lord Henry está no panteão dos meus personagens preferidos da literatura mundial.

    Por esse motivo, achei estranho você dizer que suas opiniões são ‘moralistas’, quando eu acho justamente o contrário; ele foge completamente do moralmente aceitável e é bastante controverso no que diz.

    Quanto ao fato do quadro envelhecer ou não, é até uma analogia bacana de se imaginar, embora soe forçada – e como você mesmo admite na cena do cais, ela é falha. Se fosse preferir, entre analogia e a situação acontecendo de fato, fico com o quadro realmente envelhecendo e tornado-se ‘monstruoso’ (nas palavras de Basil) enquanto Dorian atravessa o tempo com a mesma jovialidade.

    • É verdade, Bruno, concordo contigo. As opiniões do Lord Henry não são moralistas. Acabei usando essa palavra porque na hora deve ter me faltado outra, mais específica, para exemplificar a visão decadentista que ele tem da sociedade.
      Porém, há um fundo de moralismo sim, mas que é diferente daquela vigente no meio em que o protagonista e seus companheiros estão inseridos. Digo moralismo porque ele (Lord Henry) ao passo que critica os costumes, anseia por valores perdidos com o final dos idos tempos clássicos…
      Enfim, prometo reavaliar aquela sentença e procurar por uma palavra ou expressão que preencha melhor aquela lacuna!

      Obrigada pelas tuas considerações, Bruno! Seja bem-vindo!

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