Everyman (Philip Roth)

“resolvi ler everyman porque da fila ele era o mais curto.”

everyman.jpg

Faço minhas as palavras do Rust. Tinha feito todo um planejamento das próximas leituras, incluindo alguns livros da faculdade, outros emprestados e minhas últimas aquisições. Porém, um erro de cálculo fez com que eu me obrigasse a adicionar mais um livro à listinha da já turbulenta lista de leituras.

Então, dentre toda a imensidão de textos, resolvi começar pelo mais curto, Everyman foi lido em dois dias. Ainda não havia lido nada do Philip Roth, embora tenha ganhado o Indignação de presente de aniversário (que foi em maio). Admito, tenho muita vontade de ler o romance, mas, não sei, tenho a impressão de que o personagem principal deve ser meio bocó. Saberei quando ler.

Passemos para Everyman, então. Há profundas semelhanças com o romance Slow Man, do sul-africano J. M. Coetzee, com relação à construção do personagem principal; nos dois romances, os personagens são dois homens idosos que refletem sobre o sentimento de imobilidade diante da passagem do tempo. Em Slow Man, além de velho, o personagem principal perdeu uma perna e, emEveryman, o personagem percebe a iminência da morte desde muito jovem (quando presencia a morte de estranhos) e, quando velho, daqueles que estão a seu redor (pais, colegas de trabalho e amigos).

O romance conta a história do personagem principal, um publicitário aposentado que dedica-se à pintura e que vive em uma cidade litorânea. A narrativa ocorre em flashback: a cena inicial é a do próprio enterro. Após, inicia o romance de formação do protagonista. A diferença é que, em um romance de formação “tradicional”, a temática do romance é justamente a “formação”, ou “amadurecimento” da personalidade da personagem. Em Everyman, o enfoque é dado no envelhecimento, com descrições que, eu pelo menos, jamais havia visto na literatura como, por exemplo, a descrição que Gwen, esposa de Clarence, faz dos últimos momentos de seu marido:

He wanted to live, but there wasn’t anything anybody could do to keep him alive any longer. Old age is a battle, dear, if not with this, then with that. It’s an unrelenting battle, and just when you’re at your weakest and least able to call up your old fight. (ROTH, 2007: 143-144)

E, também, quando o colega, Brad, fala ao telefone que resolveu, finalmente, começar a escrever seu livro de memórias:

Well, I could never write this book, you know. Once I retired I immediately had blocks. But as soon as I got cancer most of my blocks fell away. I can do whatever I want now. (idem. pág. 154)

Percebi, na minha não tão vasta leitura de literatura contemporânea, uma semelhança entre três romances: Everyman + Slow Man+ Extremely Loud & Incredibly Close (do Jonathan Safran Foer); não apenas com relação à época de publicação, mas também, com relação à temática e ao momento histórico dos três.

Primeiro, todos os romances foram publicados na primeira década de 2000, não só fazendo parte da literatura contemporânea “imediata”, isto é, levando-se em consideração que estamos em 2010, mas também figurando como primeiras publicações do novo milênio.

Segundo, nos três romances citados, há a presença de personagens idosos. Em Everyman e Slow Man, eles são os personagens principais que introduzem demais personagens idosos (como é o caso de Elizabeth Costello – outra personagem que vai ganhar mais espaço por aqui em breve). Em Extremely Loud & Incredibly Close, a vida de três gerações (neto – pai – avô/avó) se entrelaça na narrativa fragmentada de Foer.

Acho o máximo perceber essas mudanças com relação aos papéis sociais destinados às pessoas de idade na literatura contemporânea. Aqui, eles deixam de ser apenas os avós zelosos com a família, mas são também seres humanos que têm desejos, amores, dificuldades, fraquezas, tristezas, arrependimentos e que tem de lidar com algo muito, mas muito pior do que a morte: a solidão.

Percebi, em Everyman, que a temática do envelhecimento levada a fundo, o que, imagino, tenha relação com as novas inovações tecnológicas no campo da saúde: diagnósticos, exames, medicamentos, implantes, cirurgias, tratamentos etc. que, de maneira ou outra, influenciam toda a maneira como encaramos nosso cuidado com o corpo e que acaba sendo retratada na literatura – o que passa de maneira quase despercebida para nós, leitores da quase segunda década do século XXI mas, imagine daqui a 50 anos, os leitores dos anos 2060 vão ler Everyman e provavelmente rirão dos procedimentos cirúrgicos e tratamentos a que os personagens do romance eram submetidos (último parêntese: da mesma maneira como rimos quando lemos que o tratamento dado às mulheres depressivas/histéricas no início do século XX era o choque elétrico).

Nessas partes (nas descrições de procedimentos e tratamentos), a narrativa chega a ser meio assustadora:

It was a mistake, a barely endurable mistake, because the operation lasted two hours and his head was claustrophobically draped with a cloth and the cutting and scraping took place so close to his ear, he could hear every move their instruments made as though he were inside an echo chamber. But there was nothing to be done. No fight to put up. (idem. pág. 70)

Também não posso deixar de chamar a atenção para a abordagem do momento histórico em cada uma das obras: em Everyman eExtremely Loud os personagens vivem em Nova York e sofreram, de uma maneira ou outra, as consequencias dos ataques de 11 de Setembro. Oscar perde o pai que, no dia, estava no World Trade Center e, em Everyman, o personagem, já avô, muda de cidade porque tem medo de perder a vida da maneira como muitos perderam, no ataque terrorista.

Acho interessante, como leitora situada em determinado tempo e espaço, perceber essas nuances da literatura. Percebi também que, embora leia bastante a produção contemporânea em língua inglesa, tenho negligenciado um pouco a literatura luso-brasileira. Recentemente adquiri o último do Mia Couto e consegui emprestado o último do Joca Terron. Pequenos grãos de areia para quem gosta de trabalhar com historiografia literária e que quer entender um pouco sobre o momento histórico presente representado na literatura.

Por fim, o título de Everyman, além de ser uma brincadeira com o fato de que todos os homens são comuns perante à iminência da morte, é também o nome da relojoaria do pai do personagem principal — isso explica o relógio antigo na capa da edição em inglês.

* * *

Como de costume, leio as versões em inglês porque… bem, porque eu gosto mais, são mais baratas, são feitas com papel reciclável e estão disponíveis na biblioteca da faculdade. No entanto, descobri que a Companhia das Letras providenciou a tradução dos dois primeiros romances e a Rocco, do último listado abaixo:

1. Homem Comum [Everyman] – Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto;

2. Homem Lento [Slow Man] – J. M. Coetzee, tradução de José Rubens Siqueira;

3. Extremamente Alto & Incrivelmente Perto [Extremely Loud & Incredibly Close] – Jonathan Safran Foer, tradução de Daniel Galera;

Boa leitura!

Edição:

ROTH, Philip. Everyman. New York: Vintage, 2007.

Obs (1): que lindinha a capa dessa edição em inglês, não é mesmo?

Obs (2): quero sugestões de mais livros (não necessariamente contemporâneos deles) que também tratem da temática do envelhecimento.

Obs (3): esse laptop tá queimando a minha retina.

15 thoughts on “Everyman (Philip Roth)

    • olha só, na página 152 (eu marquei, tá?) o Ezra fala com ele por telefone:
      “Before you go, you’ve get to face the facts, Ace. If I live, I’ll write some good stuff.”
      APENAS. única menção no texto todo. ASSUMO: fiquei em dúvida e pesquisei no google! não achei nenhuma outra referência, então deixei assim.
      tu acha que eu devo tirar esse trecho do texto? :**

  1. gostei da crítica, Amandita! O gancho do envelhecimento foi o melhor, porque se pode ver também em outras obras do j.c.e do p.r. :) O human stain do philip roth é imperdível!

    • juro que tô botando minha cabeça pra funcionar mas ainda não consigo identificar quem ser “j. c.”
      coetzee? mas falta o m.!!

  2. Olá Amanda,
    Bela resenha, aumentou minha vontade de conhecer o Roth, já faz tempo que tenho adiado a leitura de seus livros. Algumas sugestões de livros que abordam a velhice e o envelhecimento:
    – “O Deserto dos Tártatos”, de Dino Buzatti. E também “Naquele exato momento”, do mesmo autor, tem resenha dele no Paisagens da Crítica.
    – “O amor nos tempos do cólera”, Gabriel García Márquez.
    – “O velho e o mar”, Ernest Hemingway. E também vários contos dele.
    Nenhuma grande novidade, mas são todos excelentes.
    Abraços,
    Mauricio

    • Aaah, sim! Já li o Deserto dos Tártaros, do Buzatti! Mas recordava apenas das partes em que ele recém vai para o forte. Boa lembrança!
      Quanto aos outros, sugestões anotadas!

      Muito obrigada!

  3. Amo esse livro! Tivemos grandes discussões na Lit. Norte-Americana IV no ano passado.
    Everyman tbm se refere ao personagem do “morality play “Everyman”. Veja o que diz no Wiki:
    “The premise is that the good and evil deeds of one’s life will be tallied by God after death, as in a ledger book. The play is the allegorical accounting of the life of Everyman, who represents all mankind. In the course of the action, Everyman tries to convince other characters to accompany him in the hope of improving his account. All the characters are also allegorical, each personifying an abstract idea such as Fellowship, (material) Goods, and Knowledge. The conflict between good and evil is dramatized by the interactions between characters.”
    Assim faz o personagem sem nome de Roth, tentando convencer o leitor de que as ações da vida dele não o condenam.

  4. Amanda e seu blog mais que dig!
    Pois é, estou lendo o ‘Slow Man’ e me dá certa paranoia de ficar pensando no quanto a vida é passageira, e que estou ficando velho, e que preciso aproveitar as coisas, e aí fico chorando pelos cantos por tudo que é belo ou alegre ou triste…
    Mas enfim, teu blog é muito bom, e um livro escrito dessa maneira é sem dúvida de dar água na boca. Tu escreve tão maravilhada sobre teus livros que nem tenho vontade de te sugerir, só dizer pra seguir postando. Beijos!

  5. Não gosto muito do Philip Roth. Ano passado li “O complexo de Portnoy” e achei bom, mas perece que desde esse livro ele está mais preocupado em ser “profundo”, de falar dos problemas da América, de abordar os Grandes Temas. Li a versão em português de “Everyman” e umas poucas páginas de “Indignação” e fiquei com essa impressão. Dos seus outros livros, só li as sinopses e senti as bad vibes.

    A verdade é que prefiro autores e livros em que a maior preocupação de seus personagens seja, sei lá, escolher a cor de suas gravatas.

    • Hahahah, ai Rudá, amei teu comentário :)
      Entendo tua preocupação mas, queria saber o que tu considera como “Grandes Temas” (e com maiúscula ainda)?

      Eu gosto muito dos autores que tratam, como tu mesmo falou, “de falar dos problemas da América” porque esse é um dos muitos intuitos da literatura contemporânea — o que eu acho simplesmente genial.

      Não é à toa que eu gosto muito da Toni Morrison, que escreve literatura contemporânea baseada na revisão de muitos aspectos que são caros à cultura dos eua (p. ex. a escravidão do ponto de vista dos escravos).

  6. Grandes Temas são aqueles assuntos tirados diretamente das páginas de jornais. Se estão falando de terrorismo, tá lá o Philip Roth lançando um livro que aborde o assunto, e tá lá o crítico da Veja dizendo que o livro é “uma àcida reflexão sobre os Estados Unidos contemporâneos”… Esse tipo de coisa que só faz literatura parecer pussy.

    Claro que há muitos livros bons que são, vá lá, retratos de sua época. Mas isso só funciona quando é de forma desproposital, ou muito discreta.

    Claro, isso tudo é opinião pessoal. :)

    • Ah, entendo!
      Mas isso não chega a influenciar minha leitura porque não leio jornais e muito menos a revista Veja.

      Por outro lado, acho que alguns escritores têm sim que “registrar” o momento presente, não acho errado. A diferença é que cada um escolhe a maneira de narrar.

      Olha o Jonathan Safran Foer, por exemplo, a narração dele dos episódios ocorridos em 11 de Setembro é totalmente diferente daquilo que foi veiculado na mídia!

      Os escritores não apenas “registram”, como os jornais fazem, mas eles refletem sobre o impacto dos acontecimentos nos personagens.

      Acho válido o que o PR faz! E o que a literatura contemporânea vem fazendo. :)

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