Bagatelas (Susan Glaspell)

Tenho que confessar: Não sou uma aluna nada exemplar.

Não leio todos os textos da faculdade, deixo para fazer os trabalhos na última hora e coloco as leituras prazerosas (incluindo aqui as leituras da pesquisa, óbvio) na frente de várias obrigatórias.

Pior que isso: leio pouca poesia e teatro.

Claro que já li teatro grego, peças brasileiras, norte-americanas e, claro, inglesas durante toda a vida e no decorrer da faculdade. Mas nunca dei a devida atenção (tá, dei sim, mas não a ponto de fazer do gênero uma das minhas especialidades) como deveria, até que esse ano acabei me deparando com três peças no mesmo semestre: O Homem Perfeito, do Ibsen (na verdade, só o primeiro Ato); Pygmalion, do George Bernard Shaw (terei que ler para daqui a duas semanas) e Bagatelas, da Susan Glaspell. Como a última foi a mais recente e a que mais me chamou a atenção, discorrerei sobre ela.

Havia lido esse texto pela primeira vez em 2007, numa disciplina de caráter eletivo da faculdade. Porém, resolvi cursá-la novamente como aluna ouvinte (tá, sou uma boa aluna, sim) e a leitura da peça ainda se encontra no currículo.

Creio que a autora ainda não seja muito conhecida, levando-se em consideração que ela jamais havia sido mencionada em outras disciplinas e, pelo menos até agora, não foi mencionada novamente. Além disso, o livro de onde a peça foi tirada é uma edição publicada pela Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília — o quê, por incrível que pareça, dificulta o acesso ao texto traduzido, por não ser publicado por uma editora mais conhecida.

No entanto, ao pesquisar sobre a sua obra, descubro que ela é uma das pioneiras do teatro norte-americano contemporâneo e que, inclusive, Susan fundou o famoso The Provincetown Players (em Massachusetts). Porém,

Entre muitos outros encargos na companhia, inclusive o de atriz, Susan Glaspell foi uma de suas principais escritoras, disputando a atenção do público e da crítica com o hoje tão celebrado Eugene O’Neill que começou sua carreira com os Provincetown Players e que, ao contrário de Glaspell, foi tratado com respeito e reverência pela História. (Sander)

Além de

Depois de sua morte em 1948, e assim como tantas outras escritoras do passado, Susan Glaspell foi esquecida e desapareceu nos bastidores da história oficial. (Sander)

O que, é claro, explica muita coisa.

A peça inicia com um mistério: a morte do fazendeiro John Wright e a chegada do delegado, do procurador do condado e Hale, um vizinho. Junto deles, as duas senhoras, a Sra. Peters (esposa do delegado) e a Sra. Hale (esposa do vizinho) os acompanham para levar algumas providências (vestido, comida, xale…) para a Sra. Wright, que se encontra detida na delegacia.

Enquanto os homens buscam pelas pistas que esclareceriam o motivo do assasinato no local do crime — no quarto, localizado no segundo andar — as duas mulheres permanecem na cozinha, junto das “bagatelas”. A descrição da cena de como as duas encontram a cozinha mostra sujeira, desalinho e trabalhos interrompidos (comida e costura).

Particularmente, amo essa história por causa de suas minúcias. A maneira como as duas mulheres se movimentam pela cozinha e descobrem panos, latas, panelas e traços de sujeira evidencia, novamente, como as mulheres do fim do século XIX construíam seu universo doméstico. A cozinha também mostra como as duas personagens perceberam, através das “bagatelas”, aquilo que os homens não quiseram perceber: os motivos do assassinato. Ao se recusar a permanecer na cozinha — local feminino “por excelência” — e a rir dos assuntos que as duas mulheres travam, o delegado e o procurador deixam passar a maior evidência do crime: o silêncio contido em uma gaiola guardada na cozinha.

Não é à toa que, conforme li em algum lugar, essa é considerada uma das melhores peças em um ato escritas/encenadas até hoje na dramaturgia norte-americana.

Mais do que nunca, recomendo fortemente a leitura de um texto. Leiam e disseminem, por favor.

Boa leitura! :)

Edição:

GLASPELL, Susan. Bagatelas. Tradução de Danilo Lôbo. In: SANDER, Lúcia V. Cinco Peças de Susan Glaspell.  Brasília: Seção de Imprensa, Educação e Cultura da Embaixada dos Estados Unidos da América, 2003.


Mais (e merecidas) informações:

* Site criado por Lúcia Sander sobre a dramaturga. De onde tirei as citações acima.

* Como a obra da autora já se encontra em domínio público, há link para algumas peças. Aqui, “Bagatelas” é “Trifles”, no original.

7 thoughts on “Bagatelas (Susan Glaspell)

  1. Nossa, eu deixo o teatro totalmente de lado. Só li Hamlet, e duas peças do Newton Moreno, As Centenárias e Maria do Caritó, que a Terceiro Nome publicou. E uma edição de Otelo, daqueles livros em miniatura, que ganhei, mas não li ainda xD

    Também tenho que dar mais atenção então (e principalmente pras aulas, que ta triste hauahau)
    Achei bem interessante mesmo, me lembrou Agatha Christie, não sei pq o.O

    • Talvez a parte inicial, que envolve a descoberta do assassinado lembre um pouco da Agatha. Porém, o resto, o desenrolar dos acontecimentos e e a descoberta dos motivos do crime vão totalmente de encontro aos livros da Agatha :)
      Além do que, o cenário e as condições sociais dos personagens envolvidos na peça difere muito da Inglaterra médio-burguesa dos personagens “agathacrhistianos”, rs.

  2. Cursei como a Amanda essa cadeira e foi a cadeira mais reveladora, relevante e mais inspiradora do curso… Que saudades daquelas terças e quintas à tarde! Essa peça é intrigante não só por revelar o comportamento feminino da época, mas também por revelar a cegueira do dominante. Um texto fantástico (a adaptação cinematográfica ficou ótima também), que revela uma sociedade marcada pelo silêncio das nossas bagatelas não percebido pelos homens, como a Amanda tão brilhantemente escreveu. Outra passagem marcante da peça, é como aqueles homens julgam o desleixo da casa e julgam a Sra Wright por isso, diminuindo-a e como as outras mulheres na peça conseguem perceber muito mais que isso, revelando um retrato de suas próprias vidas, mostrando sua insatisfação e infelicidade, numa identificação com a trágica personagem. A grande ironia da peça é que Susan Glapell conseguiu fazer da Sra. Wright uma vítima mais sublime e mais digna de luto que seu marido, John Wright.

  3. Um dia eu consigo fazer uma resenha tão cheia de qualidade quanto as tuas. Infelizmente eu não tenho muito a comentar, já que nunca li esse peça ou nada sobre essa autora (mas pelo que vi não posso ser muito culpado por isso).A última peça que li foi “A Máquina de Somar”, do Elmer Rice, e a penúltima foi uma das mais divertidas, “Um Bonde Chamado Desejo”, que inclusive tu me esprestou! Ainda assim, prefiro assistir a uma peça do que lê-la, pois na minha cabeça toda a dramaticidade é perdida, vira um show de gestos exagerados, quase tom de comédia (shame on me).
    Vou postar nesse finde, Amanda ^^ Beijos!

    • Ah, é verdade! Meu “Um bonde chamado desejo” tá com a Cybele agora :-)
      E quanto aos textos, nem te preocupa, Ale. Tu vai ver que quanto mais tu escreve, mais eles vão adquirindo uma qualidade diferente, vão moldando teu estilo de escrita e dando forma aos teus pensamentos. E o principal de tudo: vão te dando cada vez mais segurança para seguir escrevendo!!

      (mas sempre com muita humildade, lóooogico…)

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