Justificativa que se faz necessária:

Essa semana faz duas semanas que não publico nada por aqui. O motivo é nobre e até pensei em listar todas as atividades acadêmicas em que estive envolvida e todas as leituras teóricas (adicionais) que precisei fazer nesse tempo em que fiquei ausente. Porém, acho que isso tornaria a leitura muito chata e ninguém aqui está muito interessado nisso. Também não é a proposta do blog.

Mas tenho lido bastante, sim. No momento, “disseco” e me delicio com Um Teto Todo Seu, da Virginia Woolf, e fico impressionada com a imensidão de sua pesquisa e de sua reflexão feita em 1928 (será que ela imagina que alguém em 2010 leria seus textos?). Depois, pretendo emendar com a leitura teórica do A Literature of Their Own, da Elaine Showalter (dando continuidade aos escritos de Woolf) e, claro, The Madwoman in the Attic, da Sandra M. Gilbert e da Susan Gubar.

Comecei a ler (mas interrompi) The Beast in the Jungle, do Henry James, The Pygmalion, do George Bernard Shaw (esse eu acabei vendendo para poder almoçar, há umas duas semanas) e Sons and Lovers, do D. H. Lawrence, todos para a disciplina de Literatura Inglesa 3 — e, muito provavelmente, só voltarei a lê-los quando a prova cobrando as respectivas leituras se aproximar.

Também comecei a ler Os Homens que não Amavam as Mulheres, do Stieg Larson porque a Gabriela me emprestou seu exemplar! Livros emprestados? Tem uma pilha à parte aqui nas minhas coisas com uns exemplares que o Antônio me emprestou (Do Fundo do Poço se vê a Lua, do Joca Terron e Elizabeth Costello, do Coetzee) e, claro, o Angela’s Ashes, do Frank McCourt, emprestado da Cybele.

Encomendei, há algumas semanas, o Freedom, do Jonathan Franzen e Herland (and other stories) da Charlotte Perkins-Gilman. Segundo a Livraria Cultura, ambos ainda estão aguardando a liberação da alfândega. Um dia eles chegam.

Essa semana começa a 56ª Feira do Livro de Porto Alegre. O único problema é que eu não sei se meu cartão de crédito não foi bloqueado… ACEITO DOAÇOES! :) Além disso, dia 15 de Novembro o Benjamin Moser vem para a feira para o lançamendo da biografia Clarice,. Logo, é bem provável que eu interrompa todas as minhas leituras para me dedicar ao Clarice,

Por fim, tenho escrito semanalmente sobre quadrinhos no site O Café. (É outro site, com outra temática e com outra proposta!)

Como deu para percebr, tenho muitas leituras interessantes para os meses de Novembro e Dezembro (yyyik, já!!???). Apesar da correria da faculdade, estou confiante de que os próximos meses sejam mais produtivos (pelo menos para o blog) do que Setembro e Outubro.

Boas leituras!

obs (1): se sobrar um limitezinho no crédito, o escolhido da feira será o Umbigo sem Fundo, do Dash Shaw.

obs (2): ilustração do Vital Lordelo.

Cachalote (Rafael Coutinho e Daniel Galera)

Faz algum tempo já que me convidaram para escrever sobre quadrinhos para o site O Café, aqui de Poa. Queria há muito tempo ter escrito minhas impressões sobre Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera, então, aproveitei o espaço do site e fiz uma série de postagens sobre a produção nacional de quadrinhos (claro que não deu pra falar sobre metade do que eu gostaria mas, isso é assunto para outro post) e um dos textos, é claro, foi dedicado ao Cachalote.

Queria, na verdade, ter postado aqui primeiro mas, como vinha escrevendo sobre a produção nacional, acabei publicando lá primeiro. Conversei com a Kika, minha “chefa”, e ela disse que eu poderia publicar o texto aqui, contanto que seguisse algumas regras. E ela fez questão de deixar bem claro qual seria a principal delas: não posso postar o mesmo texto na íntegra, devo publicar apenas uma parte e o resto no endereço de origem. Tudo bem, eu disse, acho que os leitores do blog não vão se importar em clicar no link para continuar lendo o restante do texto. Não é?

Pois então, desejo boa leitura!

* * *

Em julho desse ano, ocorreu o lançamento, aqui em Porto Alegre, na Palavraria, da graphic novel Cachalote, da editora Quadrinhos na Cia. A autoria do livro é, na verdade, uma parceria entre o desenhista Rafael Coutinho e o escritor Daniel Galera.

Lembro que acompanhei pelo blog da Companhia das Letras o lançamento nacional e fiquei muito feliz quando houve o lançamento aqui porque pude, finalmente, ter o meu exemplar em mãos. Tenho, faz algum tempo, acompanhado a produção nacional de HQs e tenho me surpreendido a cada nova descoberta e aquisição, a exemplo de textos anteriores publicados aqui, como o Mesmo Delivery, de Rafael GrampáOs passarinhos, de Estevão RibeiroEntreQuadros, de Mário César e, por fim, as publicações da Mojo  Books.

Rafael Coutinho possui um dos traços mais lindos que já vi nas minhas “andanças” pelo território das histórias em quadrinhos (e olha que eu já li uma infinidade de graphic novels!) e, além disso, todo o projeto editorial de Cachalote é fantástico.

A graphic novel é composta por seis histórias intercaladas em três grandes capítulos que iniciam e culminam em uma imensa… cachalote. Primeiro, uma senhora idosa e grávida nada na piscina de sua mansão ao encontro da cachalote. Segundo, um ator chinês bêbado no Brasil. Terceiro, um escultor que se vê protagonizando um filme sobre a própria vida. Quarto, um garoto humilde que conquista garotas adeptas do sadomasoquismo. Quinto, um playboy que vai pra Europa a mando do tio. Sexto,um casal separado que se reencontra em um parque e conversa sobre a vida de cada um — e da filha pequena.

O que chama a atenção, logo de cara, é que todas, absolutamente todas as páginas são em preto e branco. Em vários momentos tive vontade de comprar um jogo de aquarelas (confesso, ainda não tenho um) e pintar todas as histórias. Não que o fato de ter páginas em preto e branco atrapalhe a leitura ou diminua a qualidade da graphic novel, muito pelo contrário! Acontece que a leitura é tão prazerosa que dá vontade de “participar” do processo de criação com aquarela ou canentinha ou giz de cera.

Continue a ler o resto do texto aqui.

The Invisible Worm (Jennifer Johnston)

Fiquei bem surpresa quando, há uns dois meses, minha colega de pesquisa me presenteou com esse romance. O presente, na verdade, foi em função de uma oficina que deveríamos apresentar (e que aconteceu essa semana) relacionando literatura e trauma.

Confesso que nunca havia ouvido falar nessa autora mas, quando vi que ela era irlandesa, lembrei de todos os romances contemporâneos de irlandesas que li nos últimos tempos e fiquei empolgada com a empreitada. O romance lembra sim, The Trick is to Keep Breathing, da Janice Galloway e The Gathering, da Anne Enright, em termos de estrutura narrativa, de personagens e, em mutios aspectos, de enredo.

Como dito anteriormente, li o texto para um trabalho cujo tema principal era o trauma. E, talvez, o aspecto mais importante a ser levado em consideração quando estudamos memória e narrativa do trauma seja a necessidade que a vítima tem de se expressar a respeito do ocorrido. O evento traumático desestabiliza e fratura e, como consequência, a memória desse evento passa a “assombrar” o sujeito traumático e influenciando sua própria maneira de narrar e de expressar. Por outro lado, o sujeito do trauma tem a necessidade de narrar repetidas vezes o evento traumático porque, ao adentrar no terreno traumático, ele tenta dar uma lógica e contar para si mesmo, por meio de palavras, o que aconteceu.

Não existem palavras suficientes que possam descrever o que foi visto e sentido, como é o caso de Invisible Worm, em que Laura, dona de casa de quase quarenta anos ainda é “assombrada” pela memória do estupro cometido pelo próprio pai. A história do romance inicia quando Laura e seu marido Maurice se preparam para o funeral do pai da personagem.
Não há uma divisão “formal” e numerada entre capítulos, mas há várias partes separadas que compõem o romance. E, em cada uma delas, Laura relembra do pai com uma mescla de ódio e culpa, pois, certo tempo depois do acontecido a mãe de Laura comete suicídio. E a personagem toma para si a culpa pela morte da mãe.

Como consequência, não apenas as falas da personagem são fragmentadas (li que a autora é bastante conhecida por suas peças de teatro, o que, talvez, explique a grande ocorrência de diálogos neste romance), como a própria narrativa tem esse caráter: em alguns momentos a voz narrativa é em primeira pessoa do singular e em outras, em terceira.

Outro personagem emblemático do romance é Dominic, um professor de línguas clássicas que aparece na vizinhança e se torna amigo de Laura e Maurice. O professor também tem um histórico de trauma: seu pai não o perdôou por ter largado o seminário para ser professor, causando uma ruptura na família. A partir do momendo em que Laura e Dominic se encontram, os dois passam a dividir xícaras de chá e a conversar sobre os acontecimentos traumáticos de cada um enquanto os dois, juntos, trabalham na reforma e limpeza de uma pequena casa de verão junto às águas onde a mãe de Laura se suicidou.

Apesar de o enredo ser bastante denso, a narrativa é de uma singeleza absurda pois reflete as angústias dos personagens e a maneira como os dois superam seus traumas (se é que superam…). Classifiquei esse como um livro “cinco estrelas” e como um dos meus favoritos. Gostaria de falar mais, muito mais sobre ele aqui, mas meu tempo encurtou. É bem provável que eu desenvolva mais trabalhos acerca desse romance em breve.

Boa leitura!

Edição:

JOHNSTON, Jennifer. The Invisible Worm. London: Penguin. 1991

obs (1): seguindo a onda das escritoras irlandesas contemporâneas, pretendo ler MUITO em breve o Room da Emma Donoghue (finalista do Man Booker Prize).

obs (2): fiz uma seleção dos irlandeses (entre escritores e escritoras) que tenho em casa e separei The Lord Of the Flies, Brooklyn e, claro, os clássicos Ulysses e The Portrait of the Artist as a Young Man. Quem sabe eu não consiga dar conta deles até o fim do ano?

obs (3): fiquei duas semanas sem aparecer por aqui, shame on me.