A Doll’s House (Henrik Ibsen)

Acabou o semestre. YÉ!

Prometi a mim mesma que leria e escreveria cada vez mais, mas tá difícil (e eu tô cansada!). Fiz muitas leituras teóricas de fim de semestre, como deu para imaginar, e as poucas obras de ficção que têm passado por mim ou são quadrinhos (e tenho publicado alguma coisa sobre eles no site O Café) ou foram algumas coisas perdidas para a faculdade.

O texto de hoje, então, é sobre uma dessas leituras perdidas que fiz, há algum tempo já, na faculdade. A Doll’s House não estava no currículo de nenhuma das cadeiras, mas resolvi apresentar um trabalho sobre o Ibsen e foquei a análise nessa peça. Minha intenção era mostrar como alguns aspectos retratados na peça escandinava se assemelhavam àqueles estudados até então na disciplina de literatura inglesa com os autores das ilhas britânicas. Afinal, Ibsen é considerado uma das grandes influências não apenas do teatro, mas da literatura inglesa (e europeia, claro) de modo geral e o segundo nome do teatro no continente depois de Shakespeare. Vários críticos atribuem a fama de Ibsen na Europa a sua capacidade de fazer retratos realistas tanto da esfera pública quanto da esfera privada que se assemelhavam muito à realidade vivida nos países em processo de modernização do continente europeu.

Suas peças do “período realista” têm como pano de fundo alguns dos temas que formarão boa parte da literatura escrita no século XX, como: a industrialização dos modos de produção, a relação entre os trabalhadores e os empregados, a influência dos Estados Unidos e da cultura norte-americana na Europa, o casamento e a emancipação feminina, sempre criticando o sistema econômico vigente, a burguesia e o moralismo vitoriano. Talvez esses sejam os motivos pelo qual a encenação de suas peças ficou proibida na Inglaterra durante dez anos.

A cena inicial da peça é uma das mais lindas que já li nesses últimos tempos. É tão singela que chegou a me emocionar (e olha que meu coraçãozinho de pedra não é muito chegado em emoções desse tipo): um jovem casal, Nora e Helmer, expressa a felicidade em comemorar o natal junto, com direito a árvore de natal e presentes para os filhos, sem dificuldades financeiras. Nesta cena inicial, Nora chega em casa com uma árvore, brinquedos e doces e ela e o marido se abraçam, pensando no quão diferente esse natal será dos anteriores.

Com o desenrolar da história, a atmosfera iluminada e aconchegante da casa é desfeita com o revelar de um segredo aos espectadores: Nora, há alguns anos, havia salvo a vida de seu marido às custas de uma dívida feita com o sócio dele. Nesse esquema, Nora havia falsificado a assinatura do próprio pai para obter o dinheiro necessário. Agora, o “vilão” ameaça contar para o marido, através de uma carta, o crime da esposa.

A tensão fica presente nos esforços de Nora e de Christine Linde, uma amiga de infância, em evitar que a carta chegue às mãos de Helmer. Nora entra em desespero ao cogitar a possibilidade de ver seu segredo revelado ao marido, o que certamente arruinaria sua vida e sua honra perante os filhos. O que Ibsen tenta mostrar é como as leis das mulheres se diferenciam das “leis dos homens”. Ao passo que sua personagen primou por salvar uma vida a qualquer custo, sua atitude foi repudiada pelos homens da história. Quando Helmer descobre a verdade, sua primeira reação é a de acusar a esposa de hipócrita e mentirosa, arrependendo-se quase que instantâneamente ao receber outra carta, do mesmo remetente, desfazendo a intriga.

Porém, Nora, tomada de consciência, dá-se conta de que nada disso teria acontecido se seu marido e seu pai a tivessem preparado para o mundo dos negócios e a tivessem ensinado as questões legais e, claro, se tivessem educado para que jamais precisasse recorrer a meios escusos para a obtenção de dinheiro para salvar o marido e a família.

Ibsen mostra uma afinidade para com a luta em prol da igualdade de gênero embora, quando questionado, tenha respondido que não possuía nenhum tipo de vínculo com as organizações pelos direitos das mulheres do final do século XIX e início do século XX. “Engajado” ou não, Ibsen deixa registrado um dos diálogos mais singelos e mais interessantes que já li:

HELMER. But this is monstruous! Can you neglect your most sacred duties?

NORA. What do you call my most sacred duties?

HELMER. Do I have to tell you? Your duties towards your husband, and your children.

NORA. I have another duty which was equally sacred.

HELMER. You have not. What on earth could that be?

NORA. My duty towards myself.

(IBSEN, 1995: 586)

* * *

Então, desejo a todos uma ótima leitura.

Edição:
IBSEN, Henrik. A Doll’s House. Translated by Michael Meyer. In: KLAUS, Carl H. GILBERT, Miriam et al. Stages of Drama: Classical do Contemporary Theater. New York: St. Martin’s Press, 1995.

obs (1): a foto do post foi tirada nesse site aqui e mostra Betty Hennings, a primeira atriz que interpretou Nora no Det kongelige Teater em Copenhagen.

obs (2): ainda estou devendo meu top10 2010 de leituras pro Roberto Denser. Fique tranquilo que publicarei aqui assim que o fizer.

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Sombras e Sonhos (Álvaro Domingues)

Faz um certo tempo que passei a receber umas HQs da Balão Editorial e bem fiquei surpresa quando me enviaram, há alguns dias, esse livro de contos. Como foi gentilmente enviado, não poderia deixar de registrar minhas impressões aqui. Embora esse blog seja resistente às ditas “parcerias”, abri uma exceção, afinal de contas, considero o livro como um presente. Porém, nem por isso deixei de ser criteriosa com relação à avaliação, como sou com todos os livros que têm passado por aqui ultimamente. Consequência disso é que meus livros estão quase sempre rabiscados à lápis (claro, as canetas eu arrebento no sketchbook) e com post-its e flags coloridas da 3M.

Percebi que nunca havia rabiscado tanto um livro como esse. Interessante, porque isso significa que, embora o livro já seja, por si, recheado de referências com outros elementos pertencentes ao cinema, à literatura gótica, à psicanálise, consegui criar a minha própria teia de referências e trazê-las para esse texto.

O livro em questão é formado, basicamente, de contos, microcontos e algumas incursões do autor pela poesia. Os títulos são muito interessantes e já mostram para que vieram: textos cuja temática principal é o sonho. Além disso, a publicação vem para fomentar a produção nacional de material em ficção científica (como é o caso das publicações Ficção de Polpa, da Não Editora que se encaminha para seu quarto volume de contos do gênero).

Sombras e Sonhos trata, basicamente, de um labirinto de ideias dentro de sonhos que, por sua vez, estão dentro de sonhos. Meus contos favoritos são, justamente, aqueles em que os personagens se entrelaçam em um emaranhado de sonhos, questionando a validade da realidade e rompendo com as estruturas do convencional.

Os enredos são, em sua maioria, muito interessantes mostrando que além de ser leitor de ficção científica, o autor mostra conhecimento teórico em diversos pontos. Um deles, sem dúvida, é com relação ao Sublime, conceito trabalhado por Edmund Burke e por Kant. No entanto, minha ressalva com relação ao conto cujo título é homônimo recai justamente no que, na minha opinião, dá o graça ao Sublime: a sensação de terror e, ao mesmo tempo, de prazer causada pelo distanciamento entre o sujeito e a situação de extrema e assustadora beleza. No conto em questão, as sensações provocadas pelo instrumento “Sublime” despertam mais beleza e deleite do que propriamente a sensação de grandeza, medo e/ou de uma natureza assustadora (mas deixemos esses para os romances góticos…).

O que chamou minha atenção, no entanto, foi a quantidade de textos cuja voz narrativa e/ou ponto de vista do narrador está centrado em personagens femininas. Logo na introdução (de autoria de Roberto de Souza Causo) é dito que algumas personagens são idealizadas. Acrescentaria que as narradoras também o são. Entendo que a ficção científica formou, ao longo de suas décadas de existência, principalmente com o advento do cinema, uma série de estereótipos femininos, bem como das relações delas entre os homens e entre elas e os próprios filhos e filhas. No entanto, como leitora, confesso que em certos momentos cansa se ver representada initerruptamente como um objeto de desejo. Afinal, um dos propósitos da literatura (e um dos mais legais!) é permitir que os leitores se identifiquem com os heróis, suas proezas, seus conflitos, seus sentimentos… no entanto, chateou-me o fato de que as únicas personagens (e narradoras) passíveis de gerar qualquer identificação não corresponderam as minhas expectativas.

Espero que o apelo fina do autor, presente no Tempo, seja atendido. E que ele jamais deixe de escrever, porque a escrita é uma grande leitura pessoal do mundo.

Boa leitura!
E obrigada, Balão Editorial, pelo presente!

Edição:
DOMINGUES, Álvaro. Sombras e Sonhos. São Paulo: Balão, 2010.