The Cement Garden (Ian McEwan)

Resolvi dar um jeito na lista de livros emperrada ao redor da minha cama (meu quarto mais parece um depósito de livraria mal-assombrada), começando pelo The Cement Garden, do inglês Ian McEwan. Soube da existência desse romance quando li Atonement, pois na minha edição (paperback, Anchor Books, 2007) havia uma sinopse de outros livros do mesmo autor. Vou reproduzir, na íntegra, o que li a respeito de The Cement Garden, para justificar minha escolha de leitura, nada aleatória:

First father died, then Mother. Now the four children are left alone in a house that looks like a castle strandled amon grim high-rises. Free of supervision, free of restraint, they can do anything. As long as they keep the house’s secret. In this masterpiece of psychological disquiet, McEwan excavates the ruins of childhood and uncovers things that most adults have spent a lifetime forgetting — or denying.

Li em algum lugar que esse é o romance de estreia do autor, e fiquei impressionada com a qualidade do trabalho de McEwan. O romance é relativamente curto, porém, sua narrativa é densa. Aliás, é uma das melhores que já li nos últimos tempos dos autores dos últimos tempos. É preciso ter muita coragem (e ser, no mínimo, um pouco perturbado) para escrever algo semelhante ao que ele escreveu.

McEwan usa fórmulas emprestadas dos romances góticos dos séculos XVIII e XIX (quem nunca viu um esqueleto no armário? um cimentado no porão?) para compor sua narrativa gótica contemporânea que não deixa nada a desejar ao velho Poe. O romance apresenta um enredo verossímil (diferente dos romances góticos que apelam para o sobrenatural ou para a violência extrema): após a morte dos pais, quatro irmãos (sendo a mais velha uma adolescente) precisam permanecer juntos e evitar que o governo os envie para adoção e os afaste da casa onde moram (e que agora serve de sepultura para a mãe).

A perda da noção de tempo pelos olhos de Jack, o narrador e protagonista, mostra um personagem corroído pelo trauma de ter presenciado a morte do pai enquanto os dois cimentavam o jardim e, mais tarde, de ter cimentado o cadáver da própria mãe no porão da casa. McEwan explorou bem o universo desse personagem, que se revela quando contrastado com as duas irmãs. Enquanto acreditamos naquilo que os olhos de Jack nos mostra, percebemos o quão perturbada sua percepção de vida está quando entra em conflito com Sue e Julie.

Outra personagem emblemática é Bob, o irmão mais novo, talvez o único a sofrer com a ausência dos pais e de uma figura autoritária (materna ou paterna) a reger a casa. Logo após a morte da mãe, Bob passa a querer se vestir como uma menina pois, em sua cabeça, ser uma delas é mais fácil e menos doloroso quando se é criança. A relação mais óbvia (sobre a qual não irei discorrer) seria associar o “desvio” de Bob à ausência da figura paterna na casa. Prefiro acreditar que McEwan não incorreu a esse recurso óbvio e que a construção da personagem tenha se dado em função da proximidade dele com o universo feminino, agora sua única opção de refúgio (e cujo acesso é vetado a Jack, que não compreende o mecanismo de funcionamento do novo lugar em que a casa se transformou).

Partindo para o óbvio então, não há como não recorrer à metáfora da casa como a própria mente. Afinal, é lá que se escondem as maiores aberrações, os medos, os desejos proibidos, a transgressão, o imoral, o inconcebível, o violento. Em suma, a ficção como terreno propício para explorar o que a mente assedia, criando acontecimentos bizarros que norteiam o enredo até então, além do desejo incestuoso de Jack por sua irmã Julie.

Há uma resistência na trama quando o personagem Derek aparece. Namorado de Julie, o rapaz (um jogador de sinuca profissional) se dispõe (quase impõe) a “adotar” a família de Julie por pensar que os quatro irmãos precisam de uma figura paterna caso queiram permanecer juntos naquela casa. Ele também demonstra grande interesse no imóvel, que é grande e deve valer muito no mercado, embora se encontre em um lugar afastado e praticamente sem vizinhos.

Por fim, saliento que o romance merece destaque por instigar ao mesmo tempo atração e repulsa em uma história original sobre relações dentro de uma família e sua reestruturação em face à perda dos pais.

Boa leitura!

Edição:
MCEWAN, Ian. The Cement Garden. London: Picador, 1980.

obs: ainda não assisti o filme, acho que vou locar na videoteca do campus, quando as aulas recomeçarem. :)

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