A caixa-preta (Amós Oz)

Finalmente, depois de alguns meses, consegui aparecer por aqui. Compromissos profissionais e acadêmicos acabaram adiando a sequencia de publicações que eu pretendia fazer. Pois então, retomemos o ritmo sem demora.  :-)

Antes de chegar na leitura do romance, preciso explicar como cheguei até ele. Há mais de um mês, comecei a fazer parte do clube de leitura da Livraria Cultura (de Porto Alegre) com a editora Companhia das Letras. Mês passado, a reunião se deu em função da leitura de Papéis Avulsos, do Machado de Assis. Decidi não escrever nada sobre ele aqui, pois havia lido o livro em 2007 e não tive tempo de relê-lo na íntegra para o encontro e para o post, apenas rememorei alguns dos meus contos favoritos (como o “A chinela turca”, um dos nomes mais engraçados para um dos contos mais legais do autor). Já para o segundo encontro, ocorrido no sábado passado, decidimos proceder com a leitura do romance A caixa-preta, do israelense Amós Oz, um dos livros mais interessantes que já caíram em minhas mãos. Em primeiro lugar porque a sequencia narrativa é composta por uma série de correspondências e telegramas trocados entre os personagens, caracterizando a “caixa-preta” do relacionamento entre os mesmos.

Essa narrativa não tradicional joga para o leitor a responsabilidade de fazer as emendas e montar o quebra-cabeça narrativo. Além disso, a experiência de discutir esse livro em um clube de leitura é singular, pois juntos (estávamos em seis pessoas) contribuímos para esclarecer pontos do enredo que não ficaram claros e produzimos, em conjunto, as mais diversas interpretações acerca das atitudes dos personagens. Trocar experiências de leitura com um grupo de amigos (pois assim considero os que fazem parte do clube de leitura) sem as formalidades acadêmicas ou a necessidade de trazer leituras originais ou comentários “brilhantes” fortalece a interpretação de uma narrativa como a de Amós Oz.

Basicamente, o enredo trata de um casal separado, Alec e Ilana, que voltam a se corresponder depois de sete anos e um divórcio traumático para os dois (ele, nos Estados Unidos e ela, em Israel) a propósito do filho Boaz que, rebelde e violento, foge de casa e da escola. Michel, o segundo marido de Ilana também faz parte do conflito, influenciando as negociações de valores que serão destinados ao futuro do adolescente. A narrativa fragmentada origina toda uma diversidade de vozes e pontos de vistas, articulando desejos, humilhações, sensações de impotência e, principalmente, ambições dos personagens. Acarretando, em mais de um momento, uma inversão simbólica dos papéis, pois, inicialmente os vilões da história (Alec e seu advogado Manfred) passam por um complexo processo de “humanização”, ao passo que Michel, em função de seu fanatismo religioso acaba por destruir o universo em que Ilana está inserida.

Um dos aspectos que chama a atenção na leitura de A caixa-preta é perceber como as leis restringiam (não sei se a situação permanece) a ação de Ilana. Todo o seu sofrimento decorre de sua impotência diante de seu marido, ex-marido e seus respectivos advogados. Primeiramente, porque desistiu de fazer um exame de tecidos, o que comprovaria que Boaz era realmente filho de Alec, perdendo, assim, direito à assistência e pensão, deixando mãe e filho na miséria. Depois, quando perde Yifat para os advogados de Michel, acusada de traidora quando tudo o que fez foi cuidar de Alec com câncer.

Absolutamente todos os conflitos do livro se dão em função de dinheiro e ganância. Mas é interessante perceber como, ao longo da narrativa, os personagens “pivôs” do conflito (Alec e Michel) trocam farpas, acusações, ofensas, ameaças etc. mas participam de um movimento de egos que ora avança sob o adversário, ora assume a culpa diante da miséria do outro, provenientes de realidades tão distintas. O que me fez pensar no quão difícil e ao mesmo tempo no quão nobre é um simples pedido de desculpas. Esse jogo exaustivo mostra que não há culpados ou inocentes, ou melhor, que não há inocentes quando se trata de disputas por bens e somas em dinheiro.

Boa leitura!

Edição:

OZ, Amós. A Caixa-preta. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Obs:

(1) Fiquem de olho na próxima edição do clube do livro. É de graça e ocorre em um sábado pela tarde. Todos são bem-vindos! (Divulgarei as informações por aqui)

(2) Aos curiosos, que gostariam de saber os motivos pelo qual não escrevo mais aqui com tanta freqüência, é que agora trabalho numa empresa desenvolvendo um site sobre literatura brasileira. O www.soliteratura.com.br (desculpem, mas precisava fazer uma propagandinha básica, rs)

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Citação

Em tempos de exclusões, fundamentalismos e genocídios, violências estatais e institucionais, assim como de vários outros níveis de violência que assolam a vida cotidiana, a literatura comparada representa um campo de conhecimento que fortalece o gesto na direção do outro, esse lugar intraduzível em sua diferença e, por isso mesmo, medida de uma humanidade que deve ser realizada em toda a extensão da vida social. (SCHMIDT, 2010 : 11)

SCHMIDT, Rita Terezinha. Sob o signo do presente: intervenções comparatistas. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010.