Boiando em Moçambique (Rafael Morález)

Após uma longa demora (em razão de mil tarefas acumuladas no trabalho e na faculdade), consegui voltar e escrever um pouco mais aqui no blog.

Procuro fazer com que as minhas escolhas de leitura não sejam aleatórias, como já comentado por aqui. Tento escrever sempre sobre um livro que li para a faculdade, ou para a pesquisa, ou mesmo para algum “projeto” ou estudo pessoal. Pois foi essa “não aleatoriedade” que me fez escrever, só agora, sobre o livro Boiando em Moçambique, do Rafael Morález. Resolvi ler e escrever após a leitura do Antes de nascer o mundo, de Mia Couto, para prolongar a imagem que o moçambicano exerceu sobre a minha leitura. Busquei, justamente, um livro que me fizesse conhecer mais sobre o país e seus aspectos culturais, mesmo que observados pelo olhar ocidentalizado de um brasileiro.

O livro é divertidíssimo pois o autor se utiliza de muito humor para narrar suas façanhas e, claro, um pouquinho de seu trabalho com educação, no continente africano. A leitura é prazerosa, apesar da linguagem cool utilizada praticamente o livro todo. Confesso que essa tentativa forçada de dar um caráter mais ‘leve’ e ‘descontraído’ incomodam um pouco, principalmente para quem está acostumada com uma narrativa mais, digamos, tradicional. Mas entendo que seja o estilo do autor. Além disso, as descrições dos lugares e as fotografias que acompanham a grande maioria delas superam (e muito) esse detalhe. Outro problema com relação à linguagem: há passagens em que eu realmente não soube dizer se o autor está sendo irônico ou não. Na dúvida, fiz que sim. E ri junto.

Passei boa parte da leitura me perguntando se haveria relato semelhante ao de alguém que sai de outro país, de outra cultura, de outra sociedade e que viesse ao Brasil e conhecesse as nossas mazelas. Provavelmente ficaria tão ou mais aterrorizado quanto Rafael ficou em Moçambique… O que me faz lembrar do ensaio de Montaigne sobre os canibais, em que os índios americanos ficaram impressionados, quando chegaram à Europa, e viram que os pobres e miseráveis de lá ficavam imóveis frente à tirania de classe que os assolava.

Na introdução, há um comentário afirmando que o autor não faz comparações com o “dito mundo desenvolvido”. Como é possível, se ele passa grande parte do tempo comparando o universo moçambicano com o brasileiro e sinalizando o bem e a modernidade que a conquista portuguesa fez para aqueles habitantes? Apesar disso, acho que o autor conseguiu nos trazer bastante daquele país tão rico e ao mesmo tempo tão miserável.

Mesmo sabendo das limitações do livro, acho que o autor o encerrou de uma maneira “brusca” demais, perdendo uma boa oportunidade de produzir um grande efeito narrativo em seus leitores. Mesmo não sendo o propósito do livro (que é a de publicar o relato durante o tempo em que o autor esteve naquele país), acredito que Rafael poderia ter dado um pouco mais de ênfase em seus momentos finais.

No entanto, descobri, há uns dias, na internet, uma entrevista de Mia Couto concedida a uma escola brasileira em ocasião de sua passagem por aqui. E, quando questionado sobre a sociedade africana, o autor nos fornece um belíssimo relato. Logo, acredito ser indispensável encerrar a narrativa de Rafael Morález com esse trecho da entrevista, o qual funciona como um fechamento, aquele que faltou, mas que ficou implícito no livro:

“A imagem que se tem da África fora da África é sempre associada à fome, à miséria, à guerra. Mas os africanos não vivem todos assim. Ele são felizes, são construtores de vida, têm uma vida social riquíssima, têm culturas diversas, é o lugar no mundo onde há mais diversidade do ponto de vista linguístico e cultural. Então os problemas que temos são os mesmos da maior parte dos países africanos. Têm a ver com a miséria, têm a ver com o fato de que a sua própria história é muito recente. Moçambique teve uma guerra civil de 16 anos, em que morreram muitas pessoas. Quando morre uma pessoa, tanto faz se é militar ou civil, mas o que é mais triste é que as guerras da África são guerras que matam sobretudo os civis. Os soldados morrem pouco, porque muitas vezes se transformam em forças descomandadas, já que não existe um Estado forte e não há territórios definidos. Mas a África toda não é isso, há grandes histórias de sucesso. Moçambique é ao mesmo tempo uma grande história de sucesso, porque a guerra acabou em 1992 e, quando eu pensava que nunca mais ia ver a paz, o governo conseguiu instalar a paz juntamente com a sociedade civil. E hoje Moçambique é um grande parceiro internacional de investimento e de outros governos. Por exemplo, hoje o Brasil está muito presente em Moçambique, com projetos de construção, de estradas, portos, barragens etc. Portanto, acho que Moçambique vive hoje um momento muito feliz. Mas continua sendo um dos países mais pobres do mundo.”

(Trecho da entrevista concedida no início de agosto para os alunos do 3º ano do Ensino Médio do colégio São Luís, em São Paulo. O texto foi publicado no portal Educar para Crescer, no dia 19 de agosto de 2011. Leia na íntegra)

Encerro, então, com uma frase do próprio Rafael: “Bom mesmo é não ter barreiras dentro da cabeça da gente, né?”

Boa leitura!

Edição:

MORALEZ, Rafael. Boiando em Moçambique. São Paulo: Balão, 2011

obs:

(1) Ao contrário do que pode vir a parecer, eu li sim o livro todo, de cabo a rabo. O que acontece é que discordei de muitas das coisas que foram afirmadas nos textos introdutórios (os quais, obviamente, não foram escritos pelo próprio autor).

(2) Recebi, recentemente, convites para escrever textos para dois lugares muito bacanas! Também divulgarei em breve, assim que obtiver mais detalhes (e puder divulgá-los)!

One thought on “Boiando em Moçambique (Rafael Morález)

  1. Mia Couto é o cara!

    um documentário muito legal sobre a imagem brasileira lá fora é “Olhar Estrangeiro”, uma produção meio recente que questiona essas coisas, como nos vêem através dos filmes, na Europa.. muito bom

    Não deixe de escrever nunca tuas resenhas aqui hein? sou teu fã! :)
    um abraço

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