A vendedora de fósforos (Adriana Lunardi), no Amálgama

No final do ano passado, a convite do próprio editor, fui convidada a integrar a equipe de literatura do site Amálgama. De início, fiquei indecisa, afinal, 2011 não havia sido um ano muito bom literariamente falando, com o blog praticamente atirado às traças em razão de mil outras coisas que acabaram tomando praticamente todo o meu tempo. No entanto, resolvi aceitar o “desafio” como uma espécie de promessa pessoal de que eu voltaria a me dedicar ao registro das impressões a cada livro lido. Embora a gente sempre prometa que vá atualizar o blog com mais frequência, é diferente quando tem alguém do lado efetivamente cobrando a entrega de um texto.

Pois então, no mês de janeiro recebi o romance A vendedora de fósforos, da “gaúcha-carioca” Adriana Lunardi, autora que, até então, me era desconhecida. Embora meu namorado dissesse que se trata de escritora excelente, me esforcei ao máximo para não receber influências externas, nem criar expectativas. Ao final da leitura, senti que, se em algum momento tive alguma expectativa, ela foi certamente superada. E vocês podem conferir o texto que fiz pro blog nesse link aqui.

Boa leitura :)

Edição:

LUNARDI, Adriana. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Quarto de Despejo (Carolina Maria de Jesus)

Quebrando o jejum aqui no blog. Impossível não escrever depois que descobri o Quarto de despejo, da Carolina Maria de Jesus, na biblioteca da editora (onde trabalho). Já havia tomado conhecimento dele em mais de uma aula da faculdade, infelizmente, em nenhuma de literatura brasileira. Não sei se pelo fato de ser um diário, escrito entre os anos de 1958 e 1959, por desconhecimento dos professores (a gente sempre prefere achar que não), ou se porque o tema realmente não interessou nenhum dos docentes.

O livro é o diário de Carolina, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, que, nos anos 1950, cata lixo para sobreviver e, assim, poder cumprir suas únicas ambições em vida: ter o que dar de comer aos filhos e escrever. A autora do diário não apenas lê e escreve como mostra lucidez e uma visão crítica, porém poética, das condições de vida dos favelados. Carolina escreve sobre sua situação e a dos demais moradores do Canindé. O objetivo, segundo a autora, é mostrar para o mundo, de forma sensível, as condições em que vivem os favelados e o descaso dos políticos, que só se aproximam dos mesmos em época de eleição.

Apesar dos três filhos de pais diferentes, Carolina não se deixa seduzir pelos homens que a procuram naquele ambiente cujos principais problemas (além da pobreza em si, é claro) são a promiscuidade e a bebida. Ela afirma, em diversas passagens, que o que enobrece o ser humano, principalmente as mulheres, é o trabalho e o estudo, não o casamento. Seu coração balança entre o senhor Manuel e o Cigano, ambos moradores da favela.

Devo confessar que, embora eu tenha simpatia maior pelo Manuel, a descrição que ela faz do Cigano é singular e uma das mais belas demonstrações de sentimentos que já encontrei na literatura brasileira. Ainda mais quando se encontra em um livro cujo único propósito é mostrar a miséria às quais um ser humano é capaz de estar submetido.

31 de dezembro [de 1958]:

(…)

Quando a noite surgiu, ele veio. Disse que quer estabelecer, porque quer pôr os filhos na escola. Que ele é viúvo e gosta muito de mim. Se eu quero viver ou casar com ele.

Ele me abraçou e me beijou. Contemplei a sua boca adornada de ouro e platina. Trocamos presentes. Eu lhe dei doces e roupas para os seus filhos e ele me deu pimenta e perfumes. A nossa palestra foi sobre arte e música.

Ele me disse que se eu casar com ele que me retira da favela. Lhe disse que é poética a existência andarilha.

Ele me disse que o amor de cigano é imenso igual o mar. É quente igual o sol.

Era só o que me faltava. Depois de velha virar cigana. Entre eu e o cigano existe uma atração espiritual. Ele não queria sair do meu barraco. E se eu pudesse não lhe deixava sair. Lhe convidei para vir ouvir o rádio. Ele me perguntou se sou sozinha. Respondi que eu tenho uma vida confusa igual um quebra-cabeça. Ele gosta de ler. Dei livros para ele ler. (…)

Carolina Maria de Jesus

Bom carnaval procêis tudo. :)

E, claro, boas leituras pra quem, como eu, vai ficar em casa estudando. :)

Edição:

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Círculo do livro, 1960.

Aqui, outra edição disponível.