Quarto de Despejo (Carolina Maria de Jesus)

Quebrando o jejum aqui no blog. Impossível não escrever depois que descobri o Quarto de despejo, da Carolina Maria de Jesus, na biblioteca da editora (onde trabalho). Já havia tomado conhecimento dele em mais de uma aula da faculdade, infelizmente, em nenhuma de literatura brasileira. Não sei se pelo fato de ser um diário, escrito entre os anos de 1958 e 1959, por desconhecimento dos professores (a gente sempre prefere achar que não), ou se porque o tema realmente não interessou nenhum dos docentes.

O livro é o diário de Carolina, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, que, nos anos 1950, cata lixo para sobreviver e, assim, poder cumprir suas únicas ambições em vida: ter o que dar de comer aos filhos e escrever. A autora do diário não apenas lê e escreve como mostra lucidez e uma visão crítica, porém poética, das condições de vida dos favelados. Carolina escreve sobre sua situação e a dos demais moradores do Canindé. O objetivo, segundo a autora, é mostrar para o mundo, de forma sensível, as condições em que vivem os favelados e o descaso dos políticos, que só se aproximam dos mesmos em época de eleição.

Apesar dos três filhos de pais diferentes, Carolina não se deixa seduzir pelos homens que a procuram naquele ambiente cujos principais problemas (além da pobreza em si, é claro) são a promiscuidade e a bebida. Ela afirma, em diversas passagens, que o que enobrece o ser humano, principalmente as mulheres, é o trabalho e o estudo, não o casamento. Seu coração balança entre o senhor Manuel e o Cigano, ambos moradores da favela.

Devo confessar que, embora eu tenha simpatia maior pelo Manuel, a descrição que ela faz do Cigano é singular e uma das mais belas demonstrações de sentimentos que já encontrei na literatura brasileira. Ainda mais quando se encontra em um livro cujo único propósito é mostrar a miséria às quais um ser humano é capaz de estar submetido.

31 de dezembro [de 1958]:

(…)

Quando a noite surgiu, ele veio. Disse que quer estabelecer, porque quer pôr os filhos na escola. Que ele é viúvo e gosta muito de mim. Se eu quero viver ou casar com ele.

Ele me abraçou e me beijou. Contemplei a sua boca adornada de ouro e platina. Trocamos presentes. Eu lhe dei doces e roupas para os seus filhos e ele me deu pimenta e perfumes. A nossa palestra foi sobre arte e música.

Ele me disse que se eu casar com ele que me retira da favela. Lhe disse que é poética a existência andarilha.

Ele me disse que o amor de cigano é imenso igual o mar. É quente igual o sol.

Era só o que me faltava. Depois de velha virar cigana. Entre eu e o cigano existe uma atração espiritual. Ele não queria sair do meu barraco. E se eu pudesse não lhe deixava sair. Lhe convidei para vir ouvir o rádio. Ele me perguntou se sou sozinha. Respondi que eu tenho uma vida confusa igual um quebra-cabeça. Ele gosta de ler. Dei livros para ele ler. (…)

Carolina Maria de Jesus

Bom carnaval procêis tudo. :)

E, claro, boas leituras pra quem, como eu, vai ficar em casa estudando. :)

Edição:

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Círculo do livro, 1960.

Aqui, outra edição disponível.

3 thoughts on “Quarto de Despejo (Carolina Maria de Jesus)

  1. Impossível mesmo não escrever e não comentar sobre “Quarto de Despejo” depois de lê-lo. Acho que o livro captura como nenhum outro o que realmente significa uma vida de pobreza, à margem da sociedade. Faz algo como “O Cortiço” parecer uma fantasia. Ao mesmo tempo, como você disse, ele é crítico, é poético. Um livro que recebe mesmo menos atenção do que merece (embora já tenha aparecido na lista do vestibular da UFMG).

  2. Olá. Para os que têm interesse além do aspecto literário: existem estudos espíritas que relatam a vida da autora em luxuosa encarnação passada, como Baronesa paulista. Vivia no luxo e considerava os menos afortunados e escravos como lixo. Nada como um dia após o outro, vivendo e aprendendo, para a glória de todos.

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