A visit from the goon squad (Jennifer Egan)

Disseram, não lembro onde, que 2011 foi o ano de Jonathan Franzen. Lembro que fiquei atônita com as notícias, críticas e com todo o alvoroço do mundo publicitário-literário no início do ano passado que esperei, com muita ansiedade, o meu exemplar de Freedom chegar na livraria Cultura. O livro, de fato, prometia. No entanto, minhas expectativas não foram nem de longe correspondidas e cheguei à conclusão de que o livro era muito, mas muito chato. Fato que me fez abandonar a leitura lá pelos idos da pagina 200. Posso afirmar que Freedom foi a minha grande decepção literária de 2011. (Por favor, agradecerei imensamente a quem conseguir me convencer de que estou errada.) Qual não foi a minha surpresa quando, dentre as apostas do Pulitzer de literatura de 2011, o prêmio saiu para uma autora que eu desconhecia, a Jennifer Egan, mesmo sabendo que Franzen era, então, o grande favorito. Tratei de arranjar o livro ainda em setembro, mas deixei para lê-lo na beira da praia de Jurerê Internacional quando finalmente tirei férias.

Mas vamos ao que interessa: a principal característica do romance é que ele é incrivelmente fragmentado. Cada capítulo trata de uma série de histórias e personagens que, de uma maneira ou outra, acabam se encontrando. No entanto, esses encontros são um tanto superficiais. Essa fragmentação me  incomodou um pouco, pois ela deixa o livro mais próximo de uma coletânea de contos do que propriamente de um romance. Os capítulos são muito diferentes um dos outros e, ao passo que uns são ótimos, outros me pareceram muito chatos.

No entanto, não posso deixar de ver essa cacofonia narrativa como um recurso interessante, afinal, dentro de um mesmo universo, Jennifer Egan constrói uma miríade de personagens, de situações e de estilos narrativos. Confesso que meus capítulos favoritos são: (1) aquele em que o próprio narrador conta sua morte por afogamento no East River (algo que parece improvável, mas que funcionou no romance em razão dessa fragmentação) e (2) aquele em que o filho de Sasha conta a história de saua família e a sua tese sobre as pausas nas músicas de rock por meio de (pasmem) uma apresentação de power point.

Mas o livro, em sua totalidade, é muito bom.

Imagino que deve ser meio difícil de entender o que eu escrevi até agora sem apresentar decentemente o enredo do livro. No entanto, como não gosto de escrever o tipo de resenha que foca unicamente na sinopse, aliás, odeio escrever sinopses, vou tomar emprestada (e traduzir) a sinopse oferecida pela Sarah Churchwell, em seu texto para a Guardian Books, pois acho que ela sintetiza bem o emaranhado de personagens e situações de A visit from the goon squad:

Lou, um produtor musical dos anos 1970 que cheira cocaína e seduz adolescentes, torna-se mentor de Bennie, um jovem baixista sem talento que acaba se tornando um produtor musical, que contrata Sasha, uma jovem com problemas com cleptomania, que dorme com Alex, um jovem que, muito depois, acaba sendo contratado por Bennie para estruturar o retorno aos palcos de Scott, amigo de escola de Bennie, que enlouquece e para um dia no escritório de Bennie com um peixe pescado no East River, lugar onde o então melhor amigo e namorado de Sasha foi nadar numa manhã, com resultado trágico. A esposa de Bennie trabalha para uma publicitária chama Dolly cuja filha, Lulu, terminará trabalhando com Alex; o irmão da esposa de Bennie é uma jornalista que termina preso pela tentativa de sequestro de uma atriz chamada Kitty Jackson, que cai em desgraça por conta própria e é posteriormente contratada por Dolly para permitir a reabilitação publica de um ditador genocida Latino Americano.

Mas, vocês devem estar pensando, e o que esse monte de informação tem a ver com o titulo? Bom, isso Jennifer Egan construiu muito bem: no romance, há três personagens principais (que recebem um destaque maior entre todos os outros), Bennie, Sasha e Lou. Sobre cada um deles é escrito pelo menos 3 capítulos, um sobre a adolescência, um sobre a vida adulta e outro sobre o momento presente de cada um deles. Mesclados a essas narrativas, estão os vários outros personagens que aparecem nos mais diversos momentos, a despeito de uma cronologia narrativa, e que ganham, como já foi dito, capítulos à parte, cada um escrito de maneira singular. A visita cruel do tempo, como indica sua tradução para o português, chega para todos, criando e destruindo, aproximando e afastando.

Outro ponto interessante a se pensar é na atualidade do romance, e penso que não há momento melhor para se ler o goon squad: em meio aos protestos e discussões acerca dos direitos das gravadoras com os projetos de lei SOPA e PIPA, e de ações de boicote aos sites governamentais promovidas pelo grupo hacker Anonymous, o livro mostra o início, ascensão e momento presente de um produtor musical da cena punk rock. De onde veio, com quem se relacionou, aonde chegou e como lida com um mundo digital que, aos poucos, vai minimizando o papel de uma gravadora, seus gestores, seus funcionários e, claro, seu público.

Boa leitura!

Edição:

EGAN, Jannifer. A visit from the goon squad. New York: Anchor, 2011.

obs (1): li a versão em inglês, comprada no ano passado, logo após a premiação (porém, lida com vários meses de atraso). No entanto, ouvi dizer que a edição em português (do Brasil), além de bem traduzida, conta com a arte de capa do Rafael Coutinho, um dos melhores ilustradores do país (e filho do melhor ilustrador/cartunista brasileiro, o Laerte).

obs (2): ó, uma fotinho para comprovar que eu realmente li o exemplar na beira da praia. Saudades das férias!

5 thoughts on “A visit from the goon squad (Jennifer Egan)

  1. Adorei a resenha, Amanda! Eu não considerei alguns capítulos chatos, ou desinteressantes, exatamente, só menos empolgantes. Com o da Dolly foi assim, achei bom, mas bem naquelas, não cheguei a me conectar realmente com a personagem. Dos favoritos, ficaram o do tio da Sasha, o da filha dela (claro, demais esses slides, não estava dando nada por eles!), o do Rob e achei o capítulo do Jules, como se fosse um perfil de revista de fofocas, muito bom também.

    Faltou só comentar, sem querer ser chata, que o livro também fala sobre o futuro. Não só mostrar a ascensão desse produtor, ele faz uma “previsão” de um futuro próximo que envolve tanto a música quanto a escrita (tudo escrito através de abreviações, através de aparelhinhos tecnológicos). Imagina só a gente no Dirty Old Man se falando de frente uma pra outra através de SMS? =P

    • ai, confesso que to bem de saco cheio de romance classe-média-sofre.
      quero usar meu (curto) tempo lendo coisas totalmente diferente disso. :)

  2. Realmente, é um livro formidável. O último capítulo extremamente filosófico. Não tenho certeza se é mesmo tão genial ou se é por ser tão atual. O uso do powerpoint está excelente.
    Parabéns pela resenha. Estou recomendando para o pessoal do nosso clube do livro, pois vamos discutir VCT este mês.
    Abraços
    Durval

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