Waiting for the barbarians (J. M. Coetzee)

Este é, sem dúvida, o melhor romance do Coetzee que li até agora e um dos melhores que já li na vida.

Publicado em 1980, o livro trata de assuntos recorrentes em outros livros do autor, como a passagem do tempo (da mesma maneira como em Disgrace e Slow Man, o personagem principal também é um homem de meia-idade) e o corpo que ora resiste ora se entrega a essa passagem e questões morais que abalam noções binárias e pré-concebidas de bem e mal, culpa e inocência.

Império. É na cidade/oásis entre o deserto e o que resta de uma vegetação nativa, que o velho Juiz se depara com a invasão dos militares do Third Bureau, responsáveis pela segurança do lugar, sob alegação de que os Bárbaros, povo errante que circunda a região, estão prontos para atacar o Império e tomar seu território e suas riquezas.

O romance se assemelha ao incrível Deserto dos tártaros, do italiano Dino Buzzati, pois em ambos os exércitos se preparam para invasões que jamais acontecem. No entanto, ao contrário do romance italiano, no sul africano os militares capturam bárbaros (sozinhos ou em grupos), prendem-nos e os torturam na tentativa de obter informações sobre a suposta invasão.

É numa dessas capturas que o juiz percebe a hipocrisia e a mediocirdade das intenções militares representadas pela figura do coronel Joll, além da condição desumana na qual os prisioneiros estão submetidos e da barbarie que é a tortura física. Quando o Juiz resolve liberar um grupo prisioneiros, ao saber das torturas às quais eles haviam sido submetidos, ele encontra uma jovem bárbara que fora cegada pelos militares e deixada para trás pelo seu bando. A partir desse episódio, questões morais pessoais e coletivas se entrelaçam e colidem com seu desejo de manter essa mulher, que representa a beleza fraturada, consigo e, ao mesmo tempo, levá-la de volta à sua família.

A mulher bárbara, apesar de bela, não acende nele o desejo sexual, pois seu olhar enevoado e suas pernas mutiladas são símbolos das atrocidades cometidas por aqueles homens que deveriam trabalhar conjuntamente para manter a paz e a segurança da cidade, e não disseminar o ódio, o terror e a discôrdia entre eles próprios e os habitantes da cidade.

Por isso, o juiz resolve devolve-la para junto de seu povo e de seus familiares. Ele, a bárbara e outros dois homens partem em uma jornada em busca dos sinais do povo bárbaros cujo único obstáculo é a natureza, ora proporcionando o sol escaldante do deserto, ora as chuvas e rajadas de ventos gelados do inverno, naquela que considero uma das criações literárias mais bonitas e bem escritas já tive a oportunidade de ler até hoje. Como, por exemplo, é o caso do breve diálogo que o Juiz e a barbara travam ao encontrar três homens bárbaros que faziam a segurança do povo:

“Tell them what you like. Only, now that I have brought you back, as far as I can, I wish to ask you very clearly to return to the town with me. Of your own choice.” I grip her arm. “Do you understand me? That is what I want.”

“Why?” The world falls with deathly softness from her lips. She knows that it confounds me, has confounded me from the beginning. The man with the gun advances slowly until he is almost upon us. She shakes her head. “No. I do not want to go back to that place.” (COETZEE, 2010:84)

A recusa dela em retornar ao Império, muito provavelmente como mulher “oficial” do Juiz, significa a resistência da personagem, que havia sido abandonada à própria sorte, em regressar ao local em cujas atrocidades mutilaram seu corpo e sua percepção de mundo por meio da visão. Retornar para seu povo de origem, que talvez não lhe dê a mesma assistência que havia encontrado nos braços do Juiz, é a escolha mais sensata que ela poderia ter feito.

Ao regressar ao Império, o Juiz é surpreendido pela acusação de traição pelo coronel Joll, que acredita haver ligações e acordos entre o magistrado e os bárbaros, no sentido de facilitar uma possível invasão. O Juiz então é preso e privado de sua vida corriqueira ao lado dos habitantes da cidade. Em vez de se lamentar pelo ocorrido, ele permanece tranquilo (a despeito das condições subumanas de sobrevivência) e, com o passar do tempo, entrega-se à sua condição, porém, sem resignar-se aos desígnios dos militares. Afinal, o Juiz não só sabe que os propósitos militares são infundados, como conhece o funcionamento da cidade graças aos seus mais de 30 anos dedicados à magistratura e estudo da estrutura daquele lugar peculiar.

O período de reclusão e de incredulidade para com o regime vigente o transformam no “velho louco” da cidade. Imagem recorrente na literatura, trata-se do homem lúcido, cuja vasta experiência e inteligência são capazes de discernir o que se passa por trás dos designios do poder vigente.

Waiting for the barbarians é um livro único (apesar das semelhanças com O deserto dos tártaros), e o personagem principal é dotado de uma lucidez e autonomia como há muito eu não encontrava na literatura. Apesar da distância que separa nós, leitores da segunda década do século XXI, ao ano de 1980 (da publicação do romance), a leitura do romance é extremamente contemporânea, e os aspectos humanitários abordados por Coetzee aliados à sua formidável habilidade narrativa transformam o livro numa obra que deve ser continuamente lida, trabalhada e difundida através dos tempos.

Não foi à toa que Coetzee ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 2003.

Boa Leitura!

Edição:

COETZEE, J. M. Waiting for the barbarians. New York: Penguin, 2010.

obs (1): a capa, também uma das mais lindas que já vi na vida, é de autoria do artista plástico Chris Conn e faz parte de uma coleção comemorativa aos 75 anos da editora Penguin intitulada Penguin Ink. Aqui, mais informações (e capas, lógico!) do projeto.

obs (2): a editora responsável pela tradução e publicação do romance para o português é a Companhia das Letras. Pelo que pude constatar, o livro se encontra esgotado nas lojas. Mas imagino que possa ser adquirido em sebos e/ou retirado nas melhores bibliotecas do país.

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