a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)

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aproveitei a vinda do escritor angolano para a feira do livro de porto alegre para ler meu exemplar, que há meses (quase) se perdia pelas pilhas e caixas de livros espalhadas pelo meu depósit—, digo, quarto. e chego à conclusão de que deveria ter criado vergonha na cara e lido mais cedo. no momento, escrevo este texto como rascunho em um moleskine vermelho, presente de um amigo querido, apoiado (acreditem) na barriga do meu gato que daqui a alguns dias deixará de ser meu.

lançado em 2011 pela cosac naify, a máquina de fazer espanhóis narra a história de silva, um senhor português de 84 anos que, após a morte de sua esposa, é internado em um lar para idosos. mas, apesar da dramaticidade contida na trama, afinal, as lembranças da vida do personagem estão inexoravelmente associadas à ditadura salazariana e ao período de terror que portugal enfrentou nas mãos do ditador, o romance é permeado de situações hilárias e disfarçadamente irônicas fruto de uma linguagem permeada por certa leveza.

a perda da esposa e abandono da família fazem silva repensar em sua história de vida (toda ela vivida junto de laura) e, ao mesmo tempo, o personagem passa a perceber a história de portugal no tempo da ditadura de salazar porque ele toma consciência de como é fazer parte da engrenagem da ditadura, contribuindo para o seu mecanismo de controle da sociedade.

tive a oportunidade de perguntar ao escritor por queu silva e laura foram casados por 48 anos. não é o tipo de pergunta que eu faria normalmente, porque não creio que certos detalhes de uma obra devam ser explicados com “o que o senhor quis dizer com… ?”. no entanto, o detalhe me chamou a atenção na medida em que ele revelava uma lacuna: como poderia o silva de 84 anos ter casado aos 36, se no livro é dito que eles casaram no “frescor da juventude”? eis o que o escritor respondeu: “48 foi o tempo que durou a ditadura em portugal.” apesar de os números sugerirem o contrário, tudo fez sentido.

a laura era o refúgio para que ele suportasse a ditadura. agora que ela se foi, ele tem como refletir sobre o que se passou no país e a atitude dele perante a época da ditadura. silva é um homem que aprendeu a viver única e exclusivamente em prol do bem-estar de sua família, seguindo o “script” da sociedade sob o jugo de salazar, e que descobre, no lar para idosos, o que é ter amigos (que, invariavelmente, padecerão):

depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. (…) os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre na laura e nos miúdos. esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz, não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério. (MÃE, 2011: 237)

a narrativa e o protagonista lembram um pouco os de autores como Coetzee e Philip Roth na medida em que eles retomam os questionamentos acerca da vida e do tempo de um homem contemporâneo que vive seus últimos, fazendo um balanço de sua vida e, no caso de a máquina de fazer espanhóis, da história recente de portugal.

admiro duas coisas na ficção portuguesa (levando em consideração que já li eça, saramago e, agora, valter hugo mãe) que são a leveza na linguagem empregada e as situações humorísticas e irônicas apesar das inúmeras situações dramáticas dos seus enredos. em segundo, a maneira admirável como a história do país e a situação política toca os escritores de lá. algo que falta à ficção brasileira (e seu asco/repúdio ao tratar de certos temas tidos como “ideológicos”). falta um questionamento maior acerca do “patriotismo” e, principalmente, de uma literatura que se encarregue da revisão historiográfica brasileira.

por fim, uma reflexão ao mesmo tempo lúgubre e irônica do narrador acerca da condição de portugal e que justifica o título do romance:

e sabem que mais, portugal ainda é uma máquina de fazer espanhóis. é verdade, quem de nós, ao menos uma vez na vida, não lamentou já o facto de sermos independentes. quem, mais do que isso até, não desejou que a espanha nos reconquistasse, desta vez para sempre e para salários melhores. deixem-se de tretas, meus amigos, que o patriotismo só vos fica mal, bem iam assentar-vos uns nomes à maneira, como pepe e pablo, diego e santiago, assim a virar para o lado de lá da fronteira, onde se come mais à boca grade e onde sempre houve mais ritmo no sangue. aqui, enquanto houver um salazar em cada família, estamos entregues ao inimigo. o senhor pereira, de fralda e tudo, encarou o silva da europa e pediu-lhe que tivesse piedade dos nossos ouvidos. só um pouco. para que o sol viesse sem medo bater-nos na pele. até os astros lhe hão de fugir, senhor cristiano, dizia o anísio, até o sol há de marchar para o outro lado como se viesse a noite mais depressa. rimo-nos. estávamos a rir.

as mulheres portuguesas é que faziam os espanhóis. abriam as pernas e pariam-nos a todos, estes espanhóis enjeitados, arrependidos, com vontade de voltar a casa, para terem melhor casa, melhores salários, uma dignidade à grande e não esta coisa quase a tombar ao mar, como se cada vez mais pressionada contra a parede, a suicidar-se, cheias de saudades, remorsos, queixas e tristezas frustrantes. (MÃE, 2011: 185)

quer dizer, antes do fim, um momentinho tietagem. minha foto com o escritor: 

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boa leitura!

edição:

MÃE, valter hugo. a máquina de fazer espanhóis. são paulo: cosac naify, 2011.

obs:

(1) estou participando de uma publicação que reúne textos sobre escritores e escritoras contemporâneas. minha contribuição será sobre a escritora moçambicana paulina chiziane. mais informações em breve!

(2) estou de mudança, mas espero voltar ainda por aqui até o final do ano.

4 thoughts on “a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)

    • Oi, Adriano! Ultimamente, venho tentado me manter atualizada com a literatura de língua portuguesa em geral! E tenho descoberto cada vez mais autores africanos de língua portuguesa. Minha mais recente descoberta é a moçambicana Paulina Chiziane. Niketche dela é sensacional! Abraços!

  1. Legal. Eu estou bem às voltas com a literatura africana de língua inglesa, mais especificamente (adivinha!) a poesia e tenho descoberto coisas incríveis, especialmente autores nigerianos. O Wole Soyinka é das melhores coisas que li e vai ser meu tema de doutorado, se tudo der certo.
    Boa sorte com os portugueses.

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