La Resistencia (Ernesto Sabato)

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O ano passado foi um período de muitas mudanças. Muitas delas, especialmente as profissionais, foram extremamente importantes e intensas. Confesso que em razão dessas reviravoltas profissionais, acabei deixando de lado muitos aspectos importantes em minha vida, como minha formação acadêmica (não passei na prova do mestrado) e o exercício crítico, tendo publicado textos esparsos (e breves) por aqui e somente uma resenha em um veículo maior.

No entanto, influenciada pela última leitura que fiz em 2013 – La resistencia, do Ernesto Sabato – e pela que estou fazendo no momento – Not for Profit: Why Democracy Needs the Humanities, da Martha Nussbaum –, decidi que minha maior “resolução de ano-novo” será, justamente, preencher a lacuna que deixei aberta ao longo desse ano bom, porém, conturbado.

Um dos motivos que atribuo à lacuna foi a falta de estímulo, dado que terminei a faculdade para adentrar em um mundo cujo valor está medido em laudas, palavras e caracteres, arranjados em páginas, planilhas ou segmentos, desviando um pouco minha atenção da elaboração de uma reflexão crítica sobre os (pelo menos) cinquenta títulos que li ao longo do ano.

Fiquei atordoada quando me dei conta dessa quantidade, e, mais do que isso, da qualidade de títulos maravilhosos em meio a essa multidão de livros (Alice Munro, Margaret Atwood, Helen Garner, Luigi Pirandello, Carl Sagan, Mark Twain, Maya Angelou, Toni Morrison, Chimamanda Ngozi Adichie, Herman Melville, Samuel Beckett, David Sedaris, Alice Walker, Paulina Chiziane, entre tantos outros), que suscitaram questionamentos, ideias, imagens, sofrimento e autoconhecimento. No entanto, a imensa maioria permaneceu unicamente na massa cinzenta, desconhecendo o papel .

Parece um trabalho impossível levantar os olhos do chão quando nos sentimos desestimulados tanto pelas exigências profissionais e econômicas que nosso mundo tecnicista e insensível quanto pelo isolamento intelectual que sofri ao mudar de cidade – o que me fez perder o contato praticamente diário com meus pares (e amigos queridos).

Por isso, creio que a leitura de La Resistencia tenha vindo em boa hora. Nesse livro, Sabato oferece uma mensagem desesperada às novas gerações (não somente de escritores) quando afirma que o ser humano, embora em sociedade, está perdendo o contato e a comunicação com os demais humanos, além da capacidade de reflexão, substituída pelo estímulo imediado causado pela televisão, o computador e as novas tecnologias associadas. O que dialoga com o livro de Nussbaum, no que diz respeito à negligência dada ao ensino de Artes e Humanas ao redor do mundo, em detrimento do ensino focado unicamente na ciência e na tecnologia voltado para fins militares e de proteção do Estado e para a obtenção de lucro das grandes empresas (“o mercado de trabalho”).

Antes de ter lido qualquer coisa do Sabato, amigos haviam me dito que sua prosa era demasiado “pesada” e, de certa forma, moralista. Mas acredito que, pelo contrário, Sabato colocou em palavras uma reflexão sobre as consequências que todos nós, especialmente os pertencentes à geração Y e millennials, já visualizávamos desde pelo menos duas décadas: vamos aos poucos, perdendo a capacidade de percepção do mundo como um todo, de compreensão do outro, das relações em sociedade e, claro, a perda da relação do homem com o planeta e com seu meio local. E tudo isso, claro, será refletido na literatura.

O título do livro é bastante providencial na medida em que insinua que, nos dias de hoje e nos que farão parte dos próximos séculos, acreditar na bondade e compaixão humanas, no poder da educação e da literatura, e na leitura de nossa terra e o universo que nos rodeia, será talvez o maior ato de resistência de todos.

Boa leitura!

Edição:
SABATO, Ernesto. La Resistencia. Buenos Aires: Booket, 2011.

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