a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)

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aproveitei a vinda do escritor angolano para a feira do livro de porto alegre para ler meu exemplar, que há meses (quase) se perdia pelas pilhas e caixas de livros espalhadas pelo meu depósit—, digo, quarto. e chego à conclusão de que deveria ter criado vergonha na cara e lido mais cedo. no momento, escrevo este texto como rascunho em um moleskine vermelho, presente de um amigo querido, apoiado (acreditem) na barriga do meu gato que daqui a alguns dias deixará de ser meu.

lançado em 2011 pela cosac naify, a máquina de fazer espanhóis narra a história de silva, um senhor português de 84 anos que, após a morte de sua esposa, é internado em um lar para idosos. mas, apesar da dramaticidade contida na trama, afinal, as lembranças da vida do personagem estão inexoravelmente associadas à ditadura salazariana e ao período de terror que portugal enfrentou nas mãos do ditador, o romance é permeado de situações hilárias e disfarçadamente irônicas fruto de uma linguagem permeada por certa leveza.

a perda da esposa e abandono da família fazem silva repensar em sua história de vida (toda ela vivida junto de laura) e, ao mesmo tempo, o personagem passa a perceber a história de portugal no tempo da ditadura de salazar porque ele toma consciência de como é fazer parte da engrenagem da ditadura, contribuindo para o seu mecanismo de controle da sociedade.

tive a oportunidade de perguntar ao escritor por queu silva e laura foram casados por 48 anos. não é o tipo de pergunta que eu faria normalmente, porque não creio que certos detalhes de uma obra devam ser explicados com “o que o senhor quis dizer com… ?”. no entanto, o detalhe me chamou a atenção na medida em que ele revelava uma lacuna: como poderia o silva de 84 anos ter casado aos 36, se no livro é dito que eles casaram no “frescor da juventude”? eis o que o escritor respondeu: “48 foi o tempo que durou a ditadura em portugal.” apesar de os números sugerirem o contrário, tudo fez sentido.

a laura era o refúgio para que ele suportasse a ditadura. agora que ela se foi, ele tem como refletir sobre o que se passou no país e a atitude dele perante a época da ditadura. silva é um homem que aprendeu a viver única e exclusivamente em prol do bem-estar de sua família, seguindo o “script” da sociedade sob o jugo de salazar, e que descobre, no lar para idosos, o que é ter amigos (que, invariavelmente, padecerão):

depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. (…) os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre na laura e nos miúdos. esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz, não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério. (MÃE, 2011: 237)

a narrativa e o protagonista lembram um pouco os de autores como Coetzee e Philip Roth na medida em que eles retomam os questionamentos acerca da vida e do tempo de um homem contemporâneo que vive seus últimos, fazendo um balanço de sua vida e, no caso de a máquina de fazer espanhóis, da história recente de portugal.

admiro duas coisas na ficção portuguesa (levando em consideração que já li eça, saramago e, agora, valter hugo mãe) que são a leveza na linguagem empregada e as situações humorísticas e irônicas apesar das inúmeras situações dramáticas dos seus enredos. em segundo, a maneira admirável como a história do país e a situação política toca os escritores de lá. algo que falta à ficção brasileira (e seu asco/repúdio ao tratar de certos temas tidos como “ideológicos”). falta um questionamento maior acerca do “patriotismo” e, principalmente, de uma literatura que se encarregue da revisão historiográfica brasileira.

por fim, uma reflexão ao mesmo tempo lúgubre e irônica do narrador acerca da condição de portugal e que justifica o título do romance:

e sabem que mais, portugal ainda é uma máquina de fazer espanhóis. é verdade, quem de nós, ao menos uma vez na vida, não lamentou já o facto de sermos independentes. quem, mais do que isso até, não desejou que a espanha nos reconquistasse, desta vez para sempre e para salários melhores. deixem-se de tretas, meus amigos, que o patriotismo só vos fica mal, bem iam assentar-vos uns nomes à maneira, como pepe e pablo, diego e santiago, assim a virar para o lado de lá da fronteira, onde se come mais à boca grade e onde sempre houve mais ritmo no sangue. aqui, enquanto houver um salazar em cada família, estamos entregues ao inimigo. o senhor pereira, de fralda e tudo, encarou o silva da europa e pediu-lhe que tivesse piedade dos nossos ouvidos. só um pouco. para que o sol viesse sem medo bater-nos na pele. até os astros lhe hão de fugir, senhor cristiano, dizia o anísio, até o sol há de marchar para o outro lado como se viesse a noite mais depressa. rimo-nos. estávamos a rir.

as mulheres portuguesas é que faziam os espanhóis. abriam as pernas e pariam-nos a todos, estes espanhóis enjeitados, arrependidos, com vontade de voltar a casa, para terem melhor casa, melhores salários, uma dignidade à grande e não esta coisa quase a tombar ao mar, como se cada vez mais pressionada contra a parede, a suicidar-se, cheias de saudades, remorsos, queixas e tristezas frustrantes. (MÃE, 2011: 185)

quer dizer, antes do fim, um momentinho tietagem. minha foto com o escritor: 

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boa leitura!

edição:

MÃE, valter hugo. a máquina de fazer espanhóis. são paulo: cosac naify, 2011.

obs:

(1) estou participando de uma publicação que reúne textos sobre escritores e escritoras contemporâneas. minha contribuição será sobre a escritora moçambicana paulina chiziane. mais informações em breve!

(2) estou de mudança, mas espero voltar ainda por aqui até o final do ano.

58ª Feira do Livro de Porto Alegre (26/10 a 11/11)

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Todo ano a gente combina com um zilhão de amigos de “ir na feira”. O que acontece no final? Todo mundo se desencontra e acaba que ninguém vai nos mesmos eventos. Então, para facilitar a vida de quem quem me acompanhar durante o evento (ah, para, eu adoro a feira!), resolvi eleger os eventos nos quais pretendo estar presente.

Lembrando que a Feira acontece de 26 de outubro a 11 de novembro, na praça da Alfândega, e a programação completa tá aqui.

 

27/10 – sábado

16h — III Seminário Nacional de Crítica e Literatura – Grandes mestres e seus leitores. Homenagem a Jorge Amado, com Jósélia Aguiar, Carlos Augusto Magalhães e mediação de Eliana Pritsch. Local: Sala dos Jacarandás.

19h — Sessão de autógrafos com Maikel de Abreu e Cesar Mateus – Couro Ilegítimo & outros contos – Modelo de Nuvem – Praça de autógrafos.

 

28/10 – domingo

19h – Presença de valter hugo mãe na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre. Local: Sala dos Jacarandás – Memorial do RS.

20h30 – Sessão de autógrafos com valter hugo mãe – o nosso reino / o filho de mil homens / a máquina de fazer espanhóis – Editora 34 [???] – Sala dos Jacarandás, Memorial do RS.

 

31/10 – quarta-feira

19h – A poesia na feira. Poetas conversam com o público sobre o gênero. Com Marina Colassanti, Affonso Romano de Sant’Anna e Alice Ruiz. Mediação de Ruy Carlos Ostermann. Local: Sala dos Jacarandás – Memorial do RS.

19h – Sessão de autógrafos com Diego Grando – Sétima do Singular – Não Editora – Praça de Autógrafos.

 

03/11 – sábado

16h – As histórias e os quadrinhos. Experiência de jovens quadrinistas gaúchos, com Cris Peter, Paula Mastroberti, Rafael Corrêa, Insekto, João Azeitona e Mateus Santolouco. Local: Sala dos Jacarandás – Memorial do RS.

 17h – Verão da Lata. Wilson Aquino, autor do livro, reconstitui os fatos ocorridos entre os meses de setembro de 1987 e dezembro de1988, em bate-papo com o público. Local: Sala Leste – Santander Cultural.

 20h30 – Sessão de autógrafos com Mawil – Mas podemos continuar amigos – Zarabatana / Goethe Inst. Porto Alegre – Sala dos Jacarandás – Memorial do RS.

 

07/11 – quarta-feira

16h30 – Mestre Canini, 55 anos de pura graça. Homenagem ao desenhista que abrasileirou o Zé Carioca, criador de personagens e brilhante quadrinista, cartunista, ilustrador, caricaturista e chargista. Com Canini, Fraga, Edgar Vasques, Lancast, Santiago e Luis Fernando Veríssimo. Mediação de Goida. Local: Sala Oeste – Santander Cultural.

 17h30 – O humor na literatura. O humor na literatura assim como sal na comida: quase sempre é necessário e dá um sabor especial, mas se você exagera, fica intragável (Paulo Caruso). Com Juan Pablo Villalobos, Cíntia Mocovich e Fabrício Carpinejar. Local: Sala dos Jacarandás – Memórial do RS. [obs: quero deixar bem claro que vou pela presença do Juan Pablo Villalobos. aliás, adorei Festa no Covil, lançado pela Cia. das Letras.]

 20h – Sessão de autógrafos com Juan Pablo Villalobos – Festa no Covil – Companhia das Letras – Sala dos Jacarandás – Memorial do RS.

 

09/11 – sexta-feira

18h30 – Arquiteto e seus livros: urbanidades e viajantes – Porto Alegre no final do século XIX e nos dias de hoje. Debate sobre os livros: Porto Alegre, 1820 a 1890: aspectos urbanísticos através do olhar dos viajantes estrangeiros e Urbanidades. Com Bruno Cesar Euphrasio de Mello, Vinicius Netto, Romulo Krafta e mediação de Cícero Alvarez. Local: Sala Leste – Santander Cultural.

 

10/11 – sábado

14h – Gatilho nas palavras: relacionamentos modernos e atuais. Afetividade, vida, internet e celular: novos vínculos nas relações. Com Marilice Costi e Helena Surreaux. Local: Sala Leste – Santander Cultural.

 17h30 – Seminário A escrita literária no século XXI: caminhos e desafios – novas mídias exigem nova escrita? Com Carla Schwingel, Noemi Jaffe e mediação de Liana Timm. Local: Sala dos Jacarandás – Memorial do RS.

 20h30 – Sessão de autógrafos com Noemi Jaffe – A verdadeira história do alfabeto – Companhia das Letras – Sala dos Jacarandás – Memorial do RS.

 

11/11 – domingo

18h30 – Encontro com Mia Couto. Presença do escritor, jornalista e biólogo moçambicano em bate-papo com Jane Tutikian, Ruy Carlos Ostermann e Donaldo Schüller. Coordenação de Bia Corrêa do Lago. Local: Teatro Sancho Pança – Armazém B do Cais do Porto.

 19h – Sessão de autógrafos com Mia Couto – A confissão da leoa – Companhia das Letras – Praça de autógrafos. [tá meio estranho esse horário, mas tudo bem.]

 

Em suma: PREPAREM OS BOLSOS, AMIGUINHOS.

E bom passeio a todos! :)

Estrela Distante (Roberto Bolaño)

Em primeiro lugar, devo dizer que fiquei impressionada com a qualidade das obras escolhidas para fazer parte da coleção Literatura Ibero-Americana da Folha de São Paulo. Acostumada com as coleções de “clássicos-clássicos” ou de “clássicos-contemporâneos-ocidentais”, foi uma surpresa encontrar Bolaño, Sabato, Saramago (ok, esse já costumava estrelar no rol de clássicos-contemporâneos ao lado de Umberto Eco e tantos outros), Laura Restrepo, Raduan Nassar, Piglia e Hilda Hilst (só para citar alguns) na nova série literária da Folha.

Roberto Bolaño é, sem dúvida, um dos meus escritores favoritos de todos os tempos. Admiro muito a maneira como ele escreve não apenas em termos de “familiaridade narrativa”, isto é, o tipo de escrita que se aproxima da maneira como espero escrever um dia (senta lá, Cláudia):

Ali ele vê três jovens neonazistas e um vulto no chão. Os jovens espancam o corpo com determinação. Soto permanece imóvel sob o umbral até perceber que o corpo está se movendo, que do meio dos farrapos se ergue uma mão, um braço incrivelmente sujo. A mendiga — pois se trata de uma mulher — grita, me soltem. Ninguém escuta esse grito, a não ser o escritor chileno. Talvez nessa hora os olhos de Soto tenham se enchido de lágrimas, lágrimas de autopiedade, pois ele intui ter encontrado seu destino. (…) De um jeito ou de outro, ele deixa a bolsa de viagem cair no chão, assim como os livros, e avança em direção aos jovens. Antes de o combate se travar, xinga-os em espanhol. O espanhol complicado do sul do Chile. Os jovens esfaqueiam Soto e fogem. (BOLAÑO, 2012: 70)

Além disso, também admiro o escritor pelo tratamento da temática principal de suas obras, trazendo para seus leitores as memórias e os estragos (psicológicos, financeiros e culturais) da ditadura chilena, uma das mais sangrentas da América Latina, principalmente para os membros mais jovens e sonhadores (ou não) daquela sociedade.

Com relação ao Estrela Distante, antecedendo o capítulo 01, há uma nota na qual o narrador justifica que o romance surgiu da necessidade que ele e seu amigo Arturo B. tinham de desenvolver a história final presente em La Literatura Nazi en America. Assim, segundo este “autor” da nota, Estrela Distante teria sido escrito a quatro mãos, sendo Arturo B. um de seus autores (o personagem é ficcional e recorrente na obra de Bolaño).

O enredo gira em torno do personagem principal do romance, Alberto Ruiz-Tagle, um poeta “infiltrado” em um grupo de poetas, intelectuais e estudantes chilenos no período pré-ditadura. Com Pinochet no poder, Ruiz-Tagle assume novos nome e identidade, passando a ser conhecido como Carlos Wieder, um piloto de avião a serviço do exército de Pinochet. Além disso, o narrador descreve os eventos ora sob seu ponto de vista, ora sob o ponto de vista de vários outros personagens, incluindo o próprio Wieder, que é identificado, logo no início do romance, como um elemento estranho em meio ao grupo de poetas e intelectuais no qual estava inserido.

A ditadura chilena mostra-se presente a partir do capítulo 02, no qual o narrador relata, surpreso com sua descoberta, os primeiros feitos de Wieder como piloto: poemas escritos com a fumaça do avião nos céus de Santiago. Ao contrário do primeiro capítulo, no qual são apresentados os jovens poetas chilenos discutindo a qualidade estética dos próprios trabalhos, elaborando movimentos literários e, é claro, preocupados com triângulos amorosos envolvendo as belas gêmeas do grupo, o capítulo 02 assinala o tom que permanecerá durante o resto do livro: terror.

(É nesse momento que há um esclarecimento a respeito do título do romance: no início, imaginava que o poético Estrela Distante fizesse referência ao próprio Wieder, sozinho, a bordo de um avião e desenhando poemas nos céus de Santiago, no entanto, o título é uma referência direta à estrela solitária presente na bandeira do Chile.)

Gosto, particularmente, da maneira como Bolaño trata dos poetas e intelectuais que, claro, não são canônicos, acadêmicos e/ou prestigiados pela crítica (quando muito, algum deles ganha notoriedade entre os pares). Muito pelo contrário, são poetas e devoradores de literatura marginais, autodidatas (como o próprio Carlos Wieder), jovens e, acima de tudo, sonhadores e revolucionários. São eles pertencentes às camadas mais inferiores da sociedade chilena que ganham destaque e voz em suas obras.

Por fim, outro aspecto recorrente na obra de Bolaño é, certamente, a busca obsessiva por um ou mais personagens. Em determinado momento, após a ditadura, o narrador é procurado por Abel Romero, um ex-policial, e os dois partem para descobrir o paradeiro de Wieder. Tal como em “Os detetives selvagens”, o personagem desaparece revelando um grande hiato na vida do ex-poeta e piloto.

Bom, após meu hiato prolongado, desejo uma leitura a todos que ainda, porventura, leem o blog.

Edição:

BOLAÑO, Roberto. Estrela Distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: MEDIAFashion, 2012. (Coleção Folha Literatura Ibero-Americana)

Waiting for the barbarians (J. M. Coetzee)

Este é, sem dúvida, o melhor romance do Coetzee que li até agora e um dos melhores que já li na vida.

Publicado em 1980, o livro trata de assuntos recorrentes em outros livros do autor, como a passagem do tempo (da mesma maneira como em Disgrace e Slow Man, o personagem principal também é um homem de meia-idade) e o corpo que ora resiste ora se entrega a essa passagem e questões morais que abalam noções binárias e pré-concebidas de bem e mal, culpa e inocência.

Império. É na cidade/oásis entre o deserto e o que resta de uma vegetação nativa, que o velho Juiz se depara com a invasão dos militares do Third Bureau, responsáveis pela segurança do lugar, sob alegação de que os Bárbaros, povo errante que circunda a região, estão prontos para atacar o Império e tomar seu território e suas riquezas.

O romance se assemelha ao incrível Deserto dos tártaros, do italiano Dino Buzzati, pois em ambos os exércitos se preparam para invasões que jamais acontecem. No entanto, ao contrário do romance italiano, no sul africano os militares capturam bárbaros (sozinhos ou em grupos), prendem-nos e os torturam na tentativa de obter informações sobre a suposta invasão.

É numa dessas capturas que o juiz percebe a hipocrisia e a mediocirdade das intenções militares representadas pela figura do coronel Joll, além da condição desumana na qual os prisioneiros estão submetidos e da barbarie que é a tortura física. Quando o Juiz resolve liberar um grupo prisioneiros, ao saber das torturas às quais eles haviam sido submetidos, ele encontra uma jovem bárbara que fora cegada pelos militares e deixada para trás pelo seu bando. A partir desse episódio, questões morais pessoais e coletivas se entrelaçam e colidem com seu desejo de manter essa mulher, que representa a beleza fraturada, consigo e, ao mesmo tempo, levá-la de volta à sua família.

A mulher bárbara, apesar de bela, não acende nele o desejo sexual, pois seu olhar enevoado e suas pernas mutiladas são símbolos das atrocidades cometidas por aqueles homens que deveriam trabalhar conjuntamente para manter a paz e a segurança da cidade, e não disseminar o ódio, o terror e a discôrdia entre eles próprios e os habitantes da cidade.

Por isso, o juiz resolve devolve-la para junto de seu povo e de seus familiares. Ele, a bárbara e outros dois homens partem em uma jornada em busca dos sinais do povo bárbaros cujo único obstáculo é a natureza, ora proporcionando o sol escaldante do deserto, ora as chuvas e rajadas de ventos gelados do inverno, naquela que considero uma das criações literárias mais bonitas e bem escritas já tive a oportunidade de ler até hoje. Como, por exemplo, é o caso do breve diálogo que o Juiz e a barbara travam ao encontrar três homens bárbaros que faziam a segurança do povo:

“Tell them what you like. Only, now that I have brought you back, as far as I can, I wish to ask you very clearly to return to the town with me. Of your own choice.” I grip her arm. “Do you understand me? That is what I want.”

“Why?” The world falls with deathly softness from her lips. She knows that it confounds me, has confounded me from the beginning. The man with the gun advances slowly until he is almost upon us. She shakes her head. “No. I do not want to go back to that place.” (COETZEE, 2010:84)

A recusa dela em retornar ao Império, muito provavelmente como mulher “oficial” do Juiz, significa a resistência da personagem, que havia sido abandonada à própria sorte, em regressar ao local em cujas atrocidades mutilaram seu corpo e sua percepção de mundo por meio da visão. Retornar para seu povo de origem, que talvez não lhe dê a mesma assistência que havia encontrado nos braços do Juiz, é a escolha mais sensata que ela poderia ter feito.

Ao regressar ao Império, o Juiz é surpreendido pela acusação de traição pelo coronel Joll, que acredita haver ligações e acordos entre o magistrado e os bárbaros, no sentido de facilitar uma possível invasão. O Juiz então é preso e privado de sua vida corriqueira ao lado dos habitantes da cidade. Em vez de se lamentar pelo ocorrido, ele permanece tranquilo (a despeito das condições subumanas de sobrevivência) e, com o passar do tempo, entrega-se à sua condição, porém, sem resignar-se aos desígnios dos militares. Afinal, o Juiz não só sabe que os propósitos militares são infundados, como conhece o funcionamento da cidade graças aos seus mais de 30 anos dedicados à magistratura e estudo da estrutura daquele lugar peculiar.

O período de reclusão e de incredulidade para com o regime vigente o transformam no “velho louco” da cidade. Imagem recorrente na literatura, trata-se do homem lúcido, cuja vasta experiência e inteligência são capazes de discernir o que se passa por trás dos designios do poder vigente.

Waiting for the barbarians é um livro único (apesar das semelhanças com O deserto dos tártaros), e o personagem principal é dotado de uma lucidez e autonomia como há muito eu não encontrava na literatura. Apesar da distância que separa nós, leitores da segunda década do século XXI, ao ano de 1980 (da publicação do romance), a leitura do romance é extremamente contemporânea, e os aspectos humanitários abordados por Coetzee aliados à sua formidável habilidade narrativa transformam o livro numa obra que deve ser continuamente lida, trabalhada e difundida através dos tempos.

Não foi à toa que Coetzee ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 2003.

Boa Leitura!

Edição:

COETZEE, J. M. Waiting for the barbarians. New York: Penguin, 2010.

obs (1): a capa, também uma das mais lindas que já vi na vida, é de autoria do artista plástico Chris Conn e faz parte de uma coleção comemorativa aos 75 anos da editora Penguin intitulada Penguin Ink. Aqui, mais informações (e capas, lógico!) do projeto.

obs (2): a editora responsável pela tradução e publicação do romance para o português é a Companhia das Letras. Pelo que pude constatar, o livro se encontra esgotado nas lojas. Mas imagino que possa ser adquirido em sebos e/ou retirado nas melhores bibliotecas do país.

A visit from the goon squad (Jennifer Egan)

Disseram, não lembro onde, que 2011 foi o ano de Jonathan Franzen. Lembro que fiquei atônita com as notícias, críticas e com todo o alvoroço do mundo publicitário-literário no início do ano passado que esperei, com muita ansiedade, o meu exemplar de Freedom chegar na livraria Cultura. O livro, de fato, prometia. No entanto, minhas expectativas não foram nem de longe correspondidas e cheguei à conclusão de que o livro era muito, mas muito chato. Fato que me fez abandonar a leitura lá pelos idos da pagina 200. Posso afirmar que Freedom foi a minha grande decepção literária de 2011. (Por favor, agradecerei imensamente a quem conseguir me convencer de que estou errada.) Qual não foi a minha surpresa quando, dentre as apostas do Pulitzer de literatura de 2011, o prêmio saiu para uma autora que eu desconhecia, a Jennifer Egan, mesmo sabendo que Franzen era, então, o grande favorito. Tratei de arranjar o livro ainda em setembro, mas deixei para lê-lo na beira da praia de Jurerê Internacional quando finalmente tirei férias.

Mas vamos ao que interessa: a principal característica do romance é que ele é incrivelmente fragmentado. Cada capítulo trata de uma série de histórias e personagens que, de uma maneira ou outra, acabam se encontrando. No entanto, esses encontros são um tanto superficiais. Essa fragmentação me  incomodou um pouco, pois ela deixa o livro mais próximo de uma coletânea de contos do que propriamente de um romance. Os capítulos são muito diferentes um dos outros e, ao passo que uns são ótimos, outros me pareceram muito chatos.

No entanto, não posso deixar de ver essa cacofonia narrativa como um recurso interessante, afinal, dentro de um mesmo universo, Jennifer Egan constrói uma miríade de personagens, de situações e de estilos narrativos. Confesso que meus capítulos favoritos são: (1) aquele em que o próprio narrador conta sua morte por afogamento no East River (algo que parece improvável, mas que funcionou no romance em razão dessa fragmentação) e (2) aquele em que o filho de Sasha conta a história de saua família e a sua tese sobre as pausas nas músicas de rock por meio de (pasmem) uma apresentação de power point.

Mas o livro, em sua totalidade, é muito bom.

Imagino que deve ser meio difícil de entender o que eu escrevi até agora sem apresentar decentemente o enredo do livro. No entanto, como não gosto de escrever o tipo de resenha que foca unicamente na sinopse, aliás, odeio escrever sinopses, vou tomar emprestada (e traduzir) a sinopse oferecida pela Sarah Churchwell, em seu texto para a Guardian Books, pois acho que ela sintetiza bem o emaranhado de personagens e situações de A visit from the goon squad:

Lou, um produtor musical dos anos 1970 que cheira cocaína e seduz adolescentes, torna-se mentor de Bennie, um jovem baixista sem talento que acaba se tornando um produtor musical, que contrata Sasha, uma jovem com problemas com cleptomania, que dorme com Alex, um jovem que, muito depois, acaba sendo contratado por Bennie para estruturar o retorno aos palcos de Scott, amigo de escola de Bennie, que enlouquece e para um dia no escritório de Bennie com um peixe pescado no East River, lugar onde o então melhor amigo e namorado de Sasha foi nadar numa manhã, com resultado trágico. A esposa de Bennie trabalha para uma publicitária chama Dolly cuja filha, Lulu, terminará trabalhando com Alex; o irmão da esposa de Bennie é uma jornalista que termina preso pela tentativa de sequestro de uma atriz chamada Kitty Jackson, que cai em desgraça por conta própria e é posteriormente contratada por Dolly para permitir a reabilitação publica de um ditador genocida Latino Americano.

Mas, vocês devem estar pensando, e o que esse monte de informação tem a ver com o titulo? Bom, isso Jennifer Egan construiu muito bem: no romance, há três personagens principais (que recebem um destaque maior entre todos os outros), Bennie, Sasha e Lou. Sobre cada um deles é escrito pelo menos 3 capítulos, um sobre a adolescência, um sobre a vida adulta e outro sobre o momento presente de cada um deles. Mesclados a essas narrativas, estão os vários outros personagens que aparecem nos mais diversos momentos, a despeito de uma cronologia narrativa, e que ganham, como já foi dito, capítulos à parte, cada um escrito de maneira singular. A visita cruel do tempo, como indica sua tradução para o português, chega para todos, criando e destruindo, aproximando e afastando.

Outro ponto interessante a se pensar é na atualidade do romance, e penso que não há momento melhor para se ler o goon squad: em meio aos protestos e discussões acerca dos direitos das gravadoras com os projetos de lei SOPA e PIPA, e de ações de boicote aos sites governamentais promovidas pelo grupo hacker Anonymous, o livro mostra o início, ascensão e momento presente de um produtor musical da cena punk rock. De onde veio, com quem se relacionou, aonde chegou e como lida com um mundo digital que, aos poucos, vai minimizando o papel de uma gravadora, seus gestores, seus funcionários e, claro, seu público.

Boa leitura!

Edição:

EGAN, Jannifer. A visit from the goon squad. New York: Anchor, 2011.

obs (1): li a versão em inglês, comprada no ano passado, logo após a premiação (porém, lida com vários meses de atraso). No entanto, ouvi dizer que a edição em português (do Brasil), além de bem traduzida, conta com a arte de capa do Rafael Coutinho, um dos melhores ilustradores do país (e filho do melhor ilustrador/cartunista brasileiro, o Laerte).

obs (2): ó, uma fotinho para comprovar que eu realmente li o exemplar na beira da praia. Saudades das férias!

A vendedora de fósforos (Adriana Lunardi), no Amálgama

No final do ano passado, a convite do próprio editor, fui convidada a integrar a equipe de literatura do site Amálgama. De início, fiquei indecisa, afinal, 2011 não havia sido um ano muito bom literariamente falando, com o blog praticamente atirado às traças em razão de mil outras coisas que acabaram tomando praticamente todo o meu tempo. No entanto, resolvi aceitar o “desafio” como uma espécie de promessa pessoal de que eu voltaria a me dedicar ao registro das impressões a cada livro lido. Embora a gente sempre prometa que vá atualizar o blog com mais frequência, é diferente quando tem alguém do lado efetivamente cobrando a entrega de um texto.

Pois então, no mês de janeiro recebi o romance A vendedora de fósforos, da “gaúcha-carioca” Adriana Lunardi, autora que, até então, me era desconhecida. Embora meu namorado dissesse que se trata de escritora excelente, me esforcei ao máximo para não receber influências externas, nem criar expectativas. Ao final da leitura, senti que, se em algum momento tive alguma expectativa, ela foi certamente superada. E vocês podem conferir o texto que fiz pro blog nesse link aqui.

Boa leitura :)

Edição:

LUNARDI, Adriana. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Quarto de Despejo (Carolina Maria de Jesus)

Quebrando o jejum aqui no blog. Impossível não escrever depois que descobri o Quarto de despejo, da Carolina Maria de Jesus, na biblioteca da editora (onde trabalho). Já havia tomado conhecimento dele em mais de uma aula da faculdade, infelizmente, em nenhuma de literatura brasileira. Não sei se pelo fato de ser um diário, escrito entre os anos de 1958 e 1959, por desconhecimento dos professores (a gente sempre prefere achar que não), ou se porque o tema realmente não interessou nenhum dos docentes.

O livro é o diário de Carolina, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, que, nos anos 1950, cata lixo para sobreviver e, assim, poder cumprir suas únicas ambições em vida: ter o que dar de comer aos filhos e escrever. A autora do diário não apenas lê e escreve como mostra lucidez e uma visão crítica, porém poética, das condições de vida dos favelados. Carolina escreve sobre sua situação e a dos demais moradores do Canindé. O objetivo, segundo a autora, é mostrar para o mundo, de forma sensível, as condições em que vivem os favelados e o descaso dos políticos, que só se aproximam dos mesmos em época de eleição.

Apesar dos três filhos de pais diferentes, Carolina não se deixa seduzir pelos homens que a procuram naquele ambiente cujos principais problemas (além da pobreza em si, é claro) são a promiscuidade e a bebida. Ela afirma, em diversas passagens, que o que enobrece o ser humano, principalmente as mulheres, é o trabalho e o estudo, não o casamento. Seu coração balança entre o senhor Manuel e o Cigano, ambos moradores da favela.

Devo confessar que, embora eu tenha simpatia maior pelo Manuel, a descrição que ela faz do Cigano é singular e uma das mais belas demonstrações de sentimentos que já encontrei na literatura brasileira. Ainda mais quando se encontra em um livro cujo único propósito é mostrar a miséria às quais um ser humano é capaz de estar submetido.

31 de dezembro [de 1958]:

(…)

Quando a noite surgiu, ele veio. Disse que quer estabelecer, porque quer pôr os filhos na escola. Que ele é viúvo e gosta muito de mim. Se eu quero viver ou casar com ele.

Ele me abraçou e me beijou. Contemplei a sua boca adornada de ouro e platina. Trocamos presentes. Eu lhe dei doces e roupas para os seus filhos e ele me deu pimenta e perfumes. A nossa palestra foi sobre arte e música.

Ele me disse que se eu casar com ele que me retira da favela. Lhe disse que é poética a existência andarilha.

Ele me disse que o amor de cigano é imenso igual o mar. É quente igual o sol.

Era só o que me faltava. Depois de velha virar cigana. Entre eu e o cigano existe uma atração espiritual. Ele não queria sair do meu barraco. E se eu pudesse não lhe deixava sair. Lhe convidei para vir ouvir o rádio. Ele me perguntou se sou sozinha. Respondi que eu tenho uma vida confusa igual um quebra-cabeça. Ele gosta de ler. Dei livros para ele ler. (…)

Carolina Maria de Jesus

Bom carnaval procêis tudo. :)

E, claro, boas leituras pra quem, como eu, vai ficar em casa estudando. :)

Edição:

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Círculo do livro, 1960.

Aqui, outra edição disponível.