Daisy Miller (Henry James)

Ah, sexta-feira.

Vocês não imaginam o prazer com que escrevo aqui hoje. Tive uma semana do cão (quero dizer, uma semana bem caótica, não do cão da depressão, só pra deixar bem claro…) e, finalmente, posso chegar em casa, abrir um vinho, assistir ao filme da locadora (o dessa vez foi Desejo e Perigo, do Ang Lee) e, claro, ler e escrever um pouquinho porque também sou filha de Deus. Claro que, quando acordar amanhã a rotina vai ser a mesma de quem trabalha basicamente em casa: trabalhar até botar em dia “os trabalho tudo”.

Passemos para o que interessa, então.

A leitura da faculdade dessa semana foi Daisy Miller, do Henry James. Nunca tinha lido nada dele, embora tenha em casa o The Turn of the Screw e tenha colocado na minha “lista de leituras futuras” o What Maisie Knew — porque o Jonathan Culler usa como exemplo no capítulo sobre a Narrativa em seu Teoria Literária, uma introdução.

O livro é uma história curta (ou novela) narrada por Winterbourne, americano de 27 anos, quando conhece Daisy Miller, uma jovem também americana. Os dois se conhecem na Suíça e, depois, combinam de se encontrar, no ano seguinte, em Roma. Daisy se mostra uma personagem encantadora, com asas próprias e que parte em busca dos próprios desejos.

Do que eu mais gostei?

Ao que tudo indica, as referências aos elementos da tradição gótica são características na prosa de James. Dessa vez, cenários medievais, tanto na Suiça quanto na Itália (cenário gótico por excelência), dão ao livro um quê de fantasia. A partir daí, há uma expansão no horizonte interpretativo porque, ao relacionar a vida “excêntrica” da pesonagem principal com esses elementos, James propicia uma leitura além da superficial. Vejo os elementos da literatura gótica como indicadores de uma “falha” na estrutura social vigente, “falha” essa representada por Daisy que, mesmo advertida sobre sua conduta, continua a proceder da mesma maneira mesmo em face a tudo o que é dito a seu respeito.

Explico melhor: a história discorre, basicamente, sobre a sociedade norte-americana. E, além disso, sobre uma parcela da sociedade americana que se encontra em outro continente e que translada seus juízos de valores consigo, reproduzindo suas opiniões conservadoras em um ambiente que, de acordo com a narrativa de James, não parece levar isso tão em consideração assim.

Daisy é condenada por seus compatriotas, principalmente pelas grandes madames que estão a passeio ou que moram na europa, o que é esquizofrênico, pois nem mesmo a sociedade européia condena a atitude de Daisy. Apenas o “núcleo” americano que a vê como uma moça perdida por fazer amizade e se encontrar com os rapazes que encontra durante sua estadia no continente.

Detalhe: a voz narrativa pertence a um narrador em terceira pessoa que acompanha os passos de Winterbourne, portanto, que tem acesso apenas àquilo que ele tem acesso. Além disso, as opiniões do narrador estão de acordo com as conclusões tiradas por Winterbourne!

Temos aqui um belo exemplo de domcasmurrismo: um personagem que fica em dúvida se a moça, de fato, se envolve com outros homens e acaba deixando para que o leitor decida se houve ou não excessos por parte da personagem. E a “casmurrice” da duplinha Winterbourne + narrador piora quando Daisy encontra o bonitão italiano (o rapaz mais lindo e charmoso da região). Não temos como saber, de fato, se a moça se envolveu com todos os homens que as madames dizem que ela se envolveu. Apenas sabemos que, em seu leito de morte, Daisy afirma que, de fato, não estava “engaged” com o bonitão.

Outro aspecto que chama a atenção em Daisy Miller e em tantos outros escritos de sua época é a aparente falta de capacidade por parte do autor em saber o que fazer com suas protagonistas que não seguem os padrões exigidos pela sociedade da época. É claro que Daisy pode ser vista como uma metáfora da florzinha que nasce, cresce, brilha e morre no inverno (que é o que acontece com a personagem), porém, é um tanto simplista olhar somente por esse viés.

Boa leitura, espero que apreciem, deixem seu recado etc. :)

Edição:

JAMES, Henry. Daisy Miller. London: Penguin, 2007.

obs: Há uma cena em que os personagens principais estão passeando dentro do Coliseu à noite, iluminados pela lua. Lembrei da vez em que estive lá (durante o dia) e tive alguns arrepios só de imaginar o quão assustador deve ser!!