Desabafo para José Saramago

O texto de hoje, além de pessoal (como todos os que posto aqui) é confessional.

Pouco havia me importado com a morte do escritor português José Saramago, ocorrida no dia 18 de Junho, parte porque até o momento não li nada da sua obra, parte porque fiquei irritada com o sensacionalismo demasiado em cima de sua morte da parte de blogs, jornais e revistas do país inteiro, como se um escritor ou escritora fosse importante e digno ou digna de uma notícia (ou nota) apenas quando morresse.

Confesso que fiquei irritada também com as muitas “declarações de amor literário” e tantos outros puxa-saquismos que surgiram a partir daí, a ponto de me fazer querer classificar Saramago como um possível escritor cujo nome configuraria a tão famigerada comunidade “Escritores com fãs escrotos”. Ele era bom escritor? Não sei, ainda não li nenhum dos seus romances. Mas lerei com todo o prazer do mundo como faço com todos os livros que leio e escrevo sobre aqui ou na faculdade.

No entanto, boa parte da minha antipatia para com Saramago se dissipou após tomar conhecimento do seguinte texto, publicado em 27 de Julho de 2009 no site Outros Cadernos de José Saramago:

Problema de Homens

por José Saramago

Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que crêem ser seus donos. Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume, é certo que só pouco a pouco, que esta violência é um problema dos homens e que os homens têm de resolver. De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres quem saía à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo. A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio. É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica. Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade e com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e à violência. Direito a usar o que consideravam seu. Este novo acto de violência de género, mais os que se produziram neste fim-de-semana, em Madrid uma menina assassinada, em Toledo uma mulher de 33 anos morta diante da sua filha de seis, deveriam ter feito sair os homens à rua. Talvez 100 mil homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia.

(fonte)

O que me autoriza a colocar seu autor alguns livros à frente na minha lista de leituras futuras. Se alguém teve a coragem de falar/escrever aquilo que eu muitas vezes tenho vontade de gritar ao mundo inteiro, então talvez Saramago seja um possível candidato a minha lista dos meus escritores favoritos.

Por favor, passem adiante esta mensagem.

E boa leitura a todos!

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