Reportagem sobre tradução de literatura russa na Revista Piauí

Mês passado, meu amigo Éder me perguntou por que diabos eu não lia mais literatura russa. Não lembro bem o que respondi na época, mas deve ter sido alguma desculpa furada do tipo: “não tenho tempo” (tá, não é tão furada assim, mas sempre arranjo um tempinho). Fiquei com a pergunta martelando na cabeça quando, há alguns dias, deparei-me com uma reportagem sobre a tradução de literatura russa para o português na revista Piauí de agosto (2010).

A matéria  fala sobre os três tradutores considerados pioneiros na empreitada da tradução das obras clássicas diretamente do russo. São eles: Paulo Bezerra, Boris Schnaiderman e Rubens Figueiredo. Tradutores dos canônicos, Bezerra e Figueiredo se preocupam com as novas traduções e revisões dos clássicos, enquanto que Schnaiderman prefere traduzir as vanguardas: poesia, contos e romances curtos (seja lá o que eles querem dizer com vanguardas e com romances curtos).

E vocês sabem que eu gosto da revista Cult e da Piauí porque eles dão espaço, voz e proporcionam uma maior visibilidade àquele que trabalha para que a literatura em outras línguas chegue até o público brasileiro, o tradutor. (da Bravo eu não gosto, mas isso é assunto para outro post).

Onde quero chegar? Pois bem, em um momento da reportagem, o entrevistado é Bruno Gomide, diretor do departamento de russo da USP que, coincidentemente, responde a minha pergunta com relação aos escritores russos:

Há quem diga que que a abundância de dicções, registros e temas das obras russas encontra eco na fragmentação de interesses do homem moderno — ou pós-moderno, como querem alguns. Outros, ao contrário, sugerem que um mundo de relações superficiais exige profundidade, e isso os russos têm de sobra. “É um pouco genérico, mas pode ser que os russos respondam a inquietações profundas. Não seria a primeira vez que se recorre a eles para isso”, ponderou. (página 67)

Fiquei pensando: poxa, é exatamente esse o motivo pelo qual não leio a literatura russa com a devida frequencia. O grau de reflexão deles sobre a sociedade e a condição humana é tal que exige maturidade litéraria e, por que não dizer?, estômago. Pensei nisso quando saímos da livraria mas, por algum motivo, acabei não verbalizando. Para mim, a literatura russa é algo tão singular devido a inúmeros fatores históricos e sociais que nenhuma outra literatura conseguiu registrar de maneira tão densa como os russos conseguiram.

Ainda analisando a reportagem, me deparo com uma frase que, para nós, estudantes de tradução, aparentemente não significa nada:

Enquanto a característica que mais salta à vista em Paulo Bezerra é o abrasileiramento do texto, e em Boris Schnaiderman é o seu preciosismo exaustivo em busca de uma perfeição que sabe inatingível, a de Rubens Figueiredo é o rigor na fidelidade do texto original. (página 70)

A parte do Paulo Bezerra até tudo bem, vá lá, alguns tradutores têm mesmo mania de procurar expressões locais, “domesticar”, para que o leitor brasileiro possa compreender o contexto e porque, bem, porque algumas expressões não existem no português brasileiro e o tradutor precisa resolver a situação de alguma maneira. Porém, com relação ao que foi dito dos outros dois tradutors, até parece que tradução é algo que se analisa assim, de maneira tão simples, tão banal. A gente que estuda tradução até desconfia de declarações/enunciados desse tipo porque a tradução é um ato tão pessoal, assim como a própria escrita de um romance, que passa a ser bobagem perguntar para um tradutor qual o seu “estilo”. Ora bolas, é a mesma coisa que perguntar para um escritor o que ele tinha em mente quando resolveu escrever x ou y.

Por fim, após ler a matéria, fiquei refletindo sobre o assunto e me dei conta de que, além de não conhecer muitos clássicos em russo (li só dois do Dostoiévski, amo o Memórias do Subsolo), desconheço a produção contemporânea deles. Também, queria saber quem são os tradutores em formação! Porque imagino que a USP tenha um grupo bem grande deles. :)

Se eu fosse a autora da reportagem, certamente teria incluído mais uma coluna de texto (retirando a imagem de quase meia página já tava bom) fazendo um apanhado dos novos tradutores e, por que não, das tradutoras, né?

Pra encerrar, a reportagem completa encontra-se aqui (site da Piauí). Vale a pena ler! Ah, nessa mesma página, na coluna da direita, tem uns links interessantes para entrevistas com os três tradutores.

O quê?

Revista Cult. Edição número 47, Agosto de 2010 — ano 4. Editora Alvinegra

Advertisements