Estrela Distante (Roberto Bolaño)

Em primeiro lugar, devo dizer que fiquei impressionada com a qualidade das obras escolhidas para fazer parte da coleção Literatura Ibero-Americana da Folha de São Paulo. Acostumada com as coleções de “clássicos-clássicos” ou de “clássicos-contemporâneos-ocidentais”, foi uma surpresa encontrar Bolaño, Sabato, Saramago (ok, esse já costumava estrelar no rol de clássicos-contemporâneos ao lado de Umberto Eco e tantos outros), Laura Restrepo, Raduan Nassar, Piglia e Hilda Hilst (só para citar alguns) na nova série literária da Folha.

Roberto Bolaño é, sem dúvida, um dos meus escritores favoritos de todos os tempos. Admiro muito a maneira como ele escreve não apenas em termos de “familiaridade narrativa”, isto é, o tipo de escrita que se aproxima da maneira como espero escrever um dia (senta lá, Cláudia):

Ali ele vê três jovens neonazistas e um vulto no chão. Os jovens espancam o corpo com determinação. Soto permanece imóvel sob o umbral até perceber que o corpo está se movendo, que do meio dos farrapos se ergue uma mão, um braço incrivelmente sujo. A mendiga — pois se trata de uma mulher — grita, me soltem. Ninguém escuta esse grito, a não ser o escritor chileno. Talvez nessa hora os olhos de Soto tenham se enchido de lágrimas, lágrimas de autopiedade, pois ele intui ter encontrado seu destino. (…) De um jeito ou de outro, ele deixa a bolsa de viagem cair no chão, assim como os livros, e avança em direção aos jovens. Antes de o combate se travar, xinga-os em espanhol. O espanhol complicado do sul do Chile. Os jovens esfaqueiam Soto e fogem. (BOLAÑO, 2012: 70)

Além disso, também admiro o escritor pelo tratamento da temática principal de suas obras, trazendo para seus leitores as memórias e os estragos (psicológicos, financeiros e culturais) da ditadura chilena, uma das mais sangrentas da América Latina, principalmente para os membros mais jovens e sonhadores (ou não) daquela sociedade.

Com relação ao Estrela Distante, antecedendo o capítulo 01, há uma nota na qual o narrador justifica que o romance surgiu da necessidade que ele e seu amigo Arturo B. tinham de desenvolver a história final presente em La Literatura Nazi en America. Assim, segundo este “autor” da nota, Estrela Distante teria sido escrito a quatro mãos, sendo Arturo B. um de seus autores (o personagem é ficcional e recorrente na obra de Bolaño).

O enredo gira em torno do personagem principal do romance, Alberto Ruiz-Tagle, um poeta “infiltrado” em um grupo de poetas, intelectuais e estudantes chilenos no período pré-ditadura. Com Pinochet no poder, Ruiz-Tagle assume novos nome e identidade, passando a ser conhecido como Carlos Wieder, um piloto de avião a serviço do exército de Pinochet. Além disso, o narrador descreve os eventos ora sob seu ponto de vista, ora sob o ponto de vista de vários outros personagens, incluindo o próprio Wieder, que é identificado, logo no início do romance, como um elemento estranho em meio ao grupo de poetas e intelectuais no qual estava inserido.

A ditadura chilena mostra-se presente a partir do capítulo 02, no qual o narrador relata, surpreso com sua descoberta, os primeiros feitos de Wieder como piloto: poemas escritos com a fumaça do avião nos céus de Santiago. Ao contrário do primeiro capítulo, no qual são apresentados os jovens poetas chilenos discutindo a qualidade estética dos próprios trabalhos, elaborando movimentos literários e, é claro, preocupados com triângulos amorosos envolvendo as belas gêmeas do grupo, o capítulo 02 assinala o tom que permanecerá durante o resto do livro: terror.

(É nesse momento que há um esclarecimento a respeito do título do romance: no início, imaginava que o poético Estrela Distante fizesse referência ao próprio Wieder, sozinho, a bordo de um avião e desenhando poemas nos céus de Santiago, no entanto, o título é uma referência direta à estrela solitária presente na bandeira do Chile.)

Gosto, particularmente, da maneira como Bolaño trata dos poetas e intelectuais que, claro, não são canônicos, acadêmicos e/ou prestigiados pela crítica (quando muito, algum deles ganha notoriedade entre os pares). Muito pelo contrário, são poetas e devoradores de literatura marginais, autodidatas (como o próprio Carlos Wieder), jovens e, acima de tudo, sonhadores e revolucionários. São eles pertencentes às camadas mais inferiores da sociedade chilena que ganham destaque e voz em suas obras.

Por fim, outro aspecto recorrente na obra de Bolaño é, certamente, a busca obsessiva por um ou mais personagens. Em determinado momento, após a ditadura, o narrador é procurado por Abel Romero, um ex-policial, e os dois partem para descobrir o paradeiro de Wieder. Tal como em “Os detetives selvagens”, o personagem desaparece revelando um grande hiato na vida do ex-poeta e piloto.

Bom, após meu hiato prolongado, desejo uma leitura a todos que ainda, porventura, leem o blog.

Edição:

BOLAÑO, Roberto. Estrela Distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: MEDIAFashion, 2012. (Coleção Folha Literatura Ibero-Americana)

Amuleto (Roberto Bolaño)

Hahá! Consegui mudar a foto no layout do blog.

Prometo colocar outra um pouquinho melhor em breve mas, provisoriamente, deixemos que essa bonitinha dê uma dica sobre o conteúdo principal (e único, talvez) deste blog. Achei essa foto no meu computador e, infelizmente, é a única que tem a ver com livros. Aquela mão é minha e o exemplar eu não lembro qual é. Mas é bem provável que seja um de Linguística que faziam a gente ler no 1o semestre da faculdade.

Pensei em tirar uma foto da minha estante, mentira!, porque não tenho uma estante. Meus livros se empilham no chão do quarto e em cima da mesa do computador. Mais dia menos dia morrerei soterrada — porém, feliz.

Vamos então ao que interessa:
Tenho Amuleto, do chileno Roberto Bolaño, desde o ano passado e — pra variar — só agora consegui ler. Até pouco tempo reclamava que não conseguia conciliar os trabalhos da faculdade e da pesquisa com as demais leituras porque era teimosa mesmo. Agora, dedico meus (poucos) intervalos e momentos livres à leitura dos livros que acumulavam pó e formavam pilhas gigantes no meu quarto — sempre com a promessa de uma leitura futura. Percebi, então, que alguns livros conseguem ser lidos em 2 ou 3 dias como é o caso de Amuleto.

E não é só porque o livro possui (apenas) 154 páginas e uma diagramação que preserva os olhos calejados de quem sofre de miopia, astigmatismo e um cérebro cansado, mas sim, porque parece que a narradora (e personagem principal) é alguém que sentou do meu lado no ônibus e contou uma história mirabolante sobre como ficou presa no banheiro do prédio da Faculdade de Filosofia e Letras na Unam (Cidade do México – DF) de 1968. Lógico que eu adoro as pessoas como a uruguaia Auxilio Lacouturre que sentam do meu lado no ônibus e puxam conversa.

Minha parte favorita?

Los médicos me miraban desde arriba, con sus verdes tapabocas de bandidos, y decían que no mientras la camilla iba cada vez más rápida por un pasillo que viboreava como una vena fuera del cuerpo. ¿De verdad no voy a tener un hijo? ¿No estoy embarazada?, les preguntaba. Y los médicos me miraban y decían no, señora, sólo la llevamos para que asista al parto de la Historia. (BOLAÑO, 2009: 128)

Outra coisa: não comprei o livro por influências internas anteriores. Adquiri porque fiquei absurdamente intrigada com o fato de que um autor latino-americano (homem) tenha escrito sob o ponto de vista de uma personagem feminina. E que, além disso, faça da narradora-e-personagem-principal a “mãe da poesia mexicana”. Penso muito sobre isso, agora que terminei de ler o romance porque confesso que não decifrei todas as metáforas ou alegorias contidas nele (se é que há alguma, se é que o autor pretendia alguma coisa, mas me agrada pensar que sim e que ainda há muito a ser refletido acerca deste livro).

Portanto, inicio agora uma campanha: gostaria de saber dos meus leitores (eu sei que vocês existem!) se vocês têm conhecimento de outros livros que sigam o mesmo modelo: escritor homem que escreve sob a voz narrativa de uma mulher, isto é, que narre em primeira pessoa como uma mulher.

Por favor, sintam-se livres para contribuir com minha lista de leituras! :)

Edição: BOLAÑO, Roberto. Amuleto. Barcelona: Anagrama, 2009.


Fiquei com preguiça de scanear a capa do meu exemplar.

Então, resolvi abrilhantar este post com uma ilustração lindinha do Vital Lordelo.