Sombras e Sonhos (Álvaro Domingues)

Faz um certo tempo que passei a receber umas HQs da Balão Editorial e bem fiquei surpresa quando me enviaram, há alguns dias, esse livro de contos. Como foi gentilmente enviado, não poderia deixar de registrar minhas impressões aqui. Embora esse blog seja resistente às ditas “parcerias”, abri uma exceção, afinal de contas, considero o livro como um presente. Porém, nem por isso deixei de ser criteriosa com relação à avaliação, como sou com todos os livros que têm passado por aqui ultimamente. Consequência disso é que meus livros estão quase sempre rabiscados à lápis (claro, as canetas eu arrebento no sketchbook) e com post-its e flags coloridas da 3M.

Percebi que nunca havia rabiscado tanto um livro como esse. Interessante, porque isso significa que, embora o livro já seja, por si, recheado de referências com outros elementos pertencentes ao cinema, à literatura gótica, à psicanálise, consegui criar a minha própria teia de referências e trazê-las para esse texto.

O livro em questão é formado, basicamente, de contos, microcontos e algumas incursões do autor pela poesia. Os títulos são muito interessantes e já mostram para que vieram: textos cuja temática principal é o sonho. Além disso, a publicação vem para fomentar a produção nacional de material em ficção científica (como é o caso das publicações Ficção de Polpa, da Não Editora que se encaminha para seu quarto volume de contos do gênero).

Sombras e Sonhos trata, basicamente, de um labirinto de ideias dentro de sonhos que, por sua vez, estão dentro de sonhos. Meus contos favoritos são, justamente, aqueles em que os personagens se entrelaçam em um emaranhado de sonhos, questionando a validade da realidade e rompendo com as estruturas do convencional.

Os enredos são, em sua maioria, muito interessantes mostrando que além de ser leitor de ficção científica, o autor mostra conhecimento teórico em diversos pontos. Um deles, sem dúvida, é com relação ao Sublime, conceito trabalhado por Edmund Burke e por Kant. No entanto, minha ressalva com relação ao conto cujo título é homônimo recai justamente no que, na minha opinião, dá o graça ao Sublime: a sensação de terror e, ao mesmo tempo, de prazer causada pelo distanciamento entre o sujeito e a situação de extrema e assustadora beleza. No conto em questão, as sensações provocadas pelo instrumento “Sublime” despertam mais beleza e deleite do que propriamente a sensação de grandeza, medo e/ou de uma natureza assustadora (mas deixemos esses para os romances góticos…).

O que chamou minha atenção, no entanto, foi a quantidade de textos cuja voz narrativa e/ou ponto de vista do narrador está centrado em personagens femininas. Logo na introdução (de autoria de Roberto de Souza Causo) é dito que algumas personagens são idealizadas. Acrescentaria que as narradoras também o são. Entendo que a ficção científica formou, ao longo de suas décadas de existência, principalmente com o advento do cinema, uma série de estereótipos femininos, bem como das relações delas entre os homens e entre elas e os próprios filhos e filhas. No entanto, como leitora, confesso que em certos momentos cansa se ver representada initerruptamente como um objeto de desejo. Afinal, um dos propósitos da literatura (e um dos mais legais!) é permitir que os leitores se identifiquem com os heróis, suas proezas, seus conflitos, seus sentimentos… no entanto, chateou-me o fato de que as únicas personagens (e narradoras) passíveis de gerar qualquer identificação não corresponderam as minhas expectativas.

Espero que o apelo fina do autor, presente no Tempo, seja atendido. E que ele jamais deixe de escrever, porque a escrita é uma grande leitura pessoal do mundo.

Boa leitura!
E obrigada, Balão Editorial, pelo presente!

Edição:
DOMINGUES, Álvaro. Sombras e Sonhos. São Paulo: Balão, 2010.