A Mercy (Toni Morrison)

Recomeça o semestre, recomeçam os trabalhos e, claro, recomeçam as leituras para a faculdade (essas, na verdade, nunca terminam, independente de “férias”… quem faz pesquisa e apresenta trabalhos sabe disso). Então, a leitura da vez é A Mercy, da norte-americana Toni Morrison.

Mas antes de entrar no livro, preciso dizer que fico impressionada toda vez que leio algo dela.  Talvez seja porque ela escreva, de maneira megistral, histórias que nos são, de certa forma, caras, como a vida nos Estados Unidos dos anos 1680. E não falo apenas dos bravos colonizadores que enfrentaram uma natureza hostil num solo diferente do seu, fugindo dos mais diversos crimes na Europa. Toni Morrison fala dos nativos que sofreram as consequencias das invasões européias (Lina), dos escravos que serviam como moeda de troca entre os fazendeiros e mercadores (Sorrow e Florens) e da situação das mulheres como a da inglesa Rebekka, enviada para a América pelo prórpio pai, para casar com Jacob Vaark, o mercador de origem holandesa.

Como é característico em Morrison, a narrativa é fragmentada e dividida entre a narradora em terceira pessoa que acompanha o desenrolar do enredo pela visão dos inúmeros personagens, e entre Florens, a escrava letrada, que relata seu amor por um ferreiro, por quem se apaixona (não ia escrever isso mas, enfim, ao final, tem-se o acréscimo de mais uma personagem relatando suas impressões, porém, não vou me deter nisso para deixá-los com mais vontade ainda de ler o romance, hehehe!).

Não posso deixar passar em branco que, embora o romance seja maravilhoso, a leitura é difícil e a narrativa é assustadora. Explico melhor: o romance não foi escrito para quem quer se divertir ou se emocionar mas, sim, para contar uma história triste, de um tempo em uma terra de ninguém.

Porém, é uma narrativa difícil e assustadora que VICIA. A maneira como Morrison guia seus personagens (e narradores) através do tempo e da América que descreve nada mais é do que uma “emboscada” para que seus leitores prossigam com a leitura e se sintam intimidados pela força narrativa e convidados e se imaginar como parte da história mesclada de horrores da constituição da América.

Penso que um livro não existe simplesmente para divertir. Não faço a mínima questão que um romance tenha um “final feliz”, muito pelo contrário. Acredito que a literatura deve funcionar para instigar seus leitores a imaginar outras vozes, outras histórias e outros seres humanos. Deve também funcionar para desmistificar a noção de que literatura é algo superior, e que só aqueles “iniciados” podem ter acesso aos grandes conhecimentos difundidos pela Literatura (com L maiúsculo). Sim, a própria literatura, a própria narrativa em prosa ou em poesia, deve funcionar para mostrar aos “reles mortais” que muito além de simplesmente “projetar” um final ideal para as “nossas” vidas, o romance serve para descrever aquilo que acontece o tempo todo, em todos os lugares e com todo mundo (embora muitos de nós não queiramos ver).

Pesquisando sobre a tradução, descobri que a Companhia das Letras disponibilizou o primeiro capítulo da sua versão, traduzida como Compaixão, aqui. Recomendo fortemente a leitura do original, porém, caso não tenham acesso à edição em inglês, confiram o primeiro capítulo em português mesmo.

Não dá vontade de continuar lendo?

Descobri também que a Companhia das Letras utilizou a mesma capa da primeira edição do A Mercy. Infelizmente não é a mesma edição que possuo.

Boa leitura.

Obs: pelo menos a edição traduzida da Companhia das Letras, traduzia por José Rubens Siqueira, manteve o nome da Sorrow. Ufa!

Edição:

MORRISON, Toni. A Mercy. New York: Vintage, 2008.

The Bluest Eye (Toni Morrison)

Sou tão “nerd da literatura” (se é que esse termo existe, de fato) que não só leio os livros exigidos pelas disciplinas que eu curso como também leio aqueles exigidos nas disciplinas que meus colegas cursam como é o caso de The Bluest Eye, da norte-americana Toni Morrison, lido pelos colegas de Literatura Norte-Americana III (não havia me matriculado nela por questões de colisão de horário). Morrison está na minha lista-de-leituras-futuras há um bom tempo! Tenho o A Mercy dela (edição baratíssima adquirida na Livraria Cultura), peguei o Song of Solomon na biblioteca da faculdade e a Vivian, minha colega de pesquisa, defendeu o trabalho de conclusão de curso sobre o Beloved, outro que em breve aparecerá por aqui. :)

Ouvi comentários do tipo que o The Bluest Eye, por ser o primeiro livro dela, fosse talvez o menos interessante. Pois, se, como dizem for o menos interessante, imagino que Toni Morrison venha a ser minha escritora favorita, tudo porque este livro já é considerado como o meu favorito-de-todos-os-tempos. Quais os motivos? É um livro triste, o mais triste de todos e, ao mesmo tempo o mais bonito.

A história é simples (porém dramática): Pecola, uma menina negra e “feia”, tratada com indiferença pela mãe e violentada pelo pai, tem um único desejo em toda sua vida: ter olhos azuis. Afinal de contas, se ela realizar seu maior sonho, as pessoas parariam de olhar para ela com raiva ou indiferença e não a achariam tão feia.

A narrativa gira em torno da vida de Pecola, de Pauline (sua mãe) e de Cholly (seu pai) e inicia a partir do momento em que Pecola passa a viver na casa das irmãs Claudia e Frieda em decorrência do desmembramento de sua família. Ela é composta por quatro vozes distintas: Claudia (também criança e irmã de Frieda), um narrador em terceira pessoa, Pauline (mãe de Pecola) e, nos momentos finais, temos a voz da própria Pecola.

O livro questiona os ideais de beleza de uma sociedade que exige das mulheres determinados padrões de beleza impostos por determinado gênero, raça e, claro, classe social, destinados a determinado gênero, raça e classe social.
Talvez o mais genial em Morrison, foi que ela deu voz às crianças negras de Lorain, Ohio, nos Estados Unidos dos anos 40, um país marcadamente conhecido pelas lutas em prol dos direitos civis.

Segue, na sequencia (I), um dos meus trechos favoritos — narrado por Claudia, que fala sobre a péssima (na opinião dela) mania dos adultos de imaginarem que o sonho de toda menina negra é ganhar uma boneca de olhos azuis:

I destroyed white baby dolls.

But the dismembering of dolls was not the true horror. The truly horrifying thing was the transference of the same impulses to little white girls. The indifference with which I could have axed them was shaken only by my desire to do so. To discover what eluded me: the secret of the magic they weaved on others. What made people look at them and say, “Awwwww,” but not for me? The eye slide of black women as they approached them on the street, and the possessive gentleness of their touch as they handled them. (MORRISON, 1990: 15)

Segue, na sequencia (II), um vídeo interessante sobre a autora, falando, em entrevista, sobre o processo de escrita de The Bluest Eye.

Toni Morrison talks about her motivation for writing

(Além de uma escritora competentíssima, acho ela linda e querida! Queria tanto que fosse minha mãe ou tia ou avó…)

Acreditem, é o meu livro favorito até o momento.

Edição: MORRISON, Toni. The Bluest Eye. London: Picador, 1990.